Desenvolvido pela Volition e publicado pela Deep Silver, Agents of Mayhem em nenhum momento pode ser acusado de ser um jogo sem personalidade. O game nos apresenta a um dos vários universos alternativos criados ao fim de Saints Row: Gat Out of Hell, no qual super-heróis e vilões brigam nas ruas de uma cidade futurista.

Você assume o controle dos agentes da M.A.Y.H.E.M, organização que lembra muito uma versão modernizada (e mais cômica) dos Comandos em Ação. A equipe é criada após uma força maligna conhecida como L.E.G.I.O.N dominar o mundo em um evento que ficou conhecido como "A Noite do Demônio", no qual ela derrubou governos ao redor do mundo, espalhando caos e destruição em seu caminho.

Embora esses eventos pareçam graves, a maneira como eles são apresentados é leve, graças a uma mistura de humor e uma estética que lembra muitos desenhos dos anos 80. No entanto, ao contrário deles, Agents of Mayhem não traz a vantagem de ter a nostalgia a seu favor, o que ajuda a deixar claro os problemas de design que são parte integrante de sua estrutura.

Tiro, porrada e bomba

Agents of Mayhem é um game de ação “raiz”, no qual você vai passar a maior parte do tempo atirando, explodindo e finalizando seus inimigos com golpes físicos. Há uma estrutura de mundo aberto por trás disso tudo, mas não espere encontrar aqui a complexidade de atividades vista em um Grand Theft Auto — ou em um Saints Row, para manter as coisas no território da Volition.

Antes de partir em uma missão, o jogador escolhe um trio de personagens com habilidades variadas cujo controle pode ser alternado a (quase) todo momento. Reunir uma equipe com poderes complementares é importante, especialmente em fases avançadas nas quais surgem inimigos com armaduras reforçadas ou que são resistentes a determinados tipos de projéteis.

Para desbloquear o elenco completo, é preciso finalizar missões específicas a cada um deles

Há um total de 12 personagens para escolher (13, se você realizou a compra prévia do título), sendo que nem todos estão abertos desde o começo. Para desbloquear o elenco completo, é preciso finalizar missões específicas a cada um deles, sendo que algumas das figuras disponíveis estão “escondidas” por trás de certos pontos da história principal.

Infelizmente, ao terminar de desbloquear esses personagens, você provavelmente já vai ter visto tudo o que Agents of Mayhem tem a oferecer em matéria de diversidade. Não demora muito até que você perceba que há somente uma quantidade limitada de “modelos” de missão, que só variam ligeiramente entre si pela quantidade de inimigos que surgem na tela.

Atire, ande, repita

Agents of Mayhem sofre de um problema que acomete muitos jogos de mundo aberto, e que já “contaminava” a série Saints Row, sua “predecessora espiritual”: a repetição excessiva. Atirar e usar habilidades especiais é divertido, mas somente até o ponto que você percebe que as mesmas estratégias usadas no início da aventura continuam funcionando perfeitamente bem até o final dela.

Muito disso se deve à quantidade limitada de inimigos (cujas variações você esgota em poucas horas) e ao design de fases pouco inventivo. O momento em que percebi que todos (sim, todos) os laboratórios secretos dos inimigos eram exatamente iguais (variando aqui e ali) foi quando comecei a notar que, na prática, o trabalho da Volition em grande parte parece ter sido feito na base do “copiar e colar” as mesmas partes em configurações ligeiramente diferentes.

A princípio, pode parecer que a desenvolvedora se limitou a criar 13 estereótipos ambulantes

O que me incentivou a continuar jogando até o final foi o bom humor do estúdio (mesmo que nem sempre ele acerte no tom) e, principalmente, seus personagens. A princípio, pode parecer que a desenvolvedora se limitou a criar 13 estereótipos ambulantes, mas basta passar algum tempo controlando cada um deles para perceber nuances escondidas e personalidades que conseguem ser realmente cativantes.

Meus personagens favoritos acabaram sendo Oni, um ex-assassino da Yakuza, Yeti, um brutamontes com poder de gelo que também é um gênio e Kingpin, um gangster de rua que uniu as gangues e Stillwater para combater a LEGION — mas você provavelmente vai encontrar um trio diferente que corresponde melhor a seu gosto pessoal.

O lado bom é que, entre uma série de missões principais com estrutura previsível, há tarefas específicas a cada membro da MAYHEM que dão mais profundidade a cada um deles. Tudo bem, você ainda vai seguir o mesmo esquema “vá até um lugar, atire em determinado inimigo e hackeie essa estrutura”, mas ao menos nesses momentos há a revelação de que a Volition sabe construir personagens com profundidade, mesmo insistindo em “fazer graça” o tempo todo.

A repetição constante também está presente nas missões secundárias, que não variam muito em sua proposta. Você pode roubar (ou destruir) veículos marcados no mapa, participar de corridas a pé (com a velocidade de seus personagens aprimorada) ou com veículos e invadir bases da LEGION ou dominar pontos de controle — essa última parte vítima de uma decisão um tanto complicada de entender.

Ao dominar um ponto de controle, você abre algumas atividades secundárias relacionadas a ele, incluindo a possibilidade de garantir uma fonte de renda fixa. No entanto, nada disso é permanente: em intervalos regulares, o game avisa que seus inimigos retomaram controle da área e que qualquer progresso obtido até o momento foi perdido.

Isso faz com que, depois de pouco tempo, o único motivo para continuar insistindo nessa atividade seja desbloquear novas roupas para seus personagens — algo que só muda a parte cosmética deles. A não ser que você faça questão de ter todos os agentes com 100% de força (o que não é necessário para acabar a história), dificilmente vai ter motivos para insistir na repetição dessas atividades.

Jogue como quiser

Enquanto a estrutura narrativa e os objetivos de Agents of Mayhem são repetitivos, não há como reclamar da quantidade de opções que o game oferece na hora de personalizar seus personagens. Cada um deles possui uma série de acessórios que mudam como suas habilidades funcionam, bem como três melhorias fixas que afetam seu comportamento em batalha.

No entanto, a personalização mais interessante é a do nível de dificuldade: há nada menos do que 16 opções disponíveis, que vão sendo destravadas aos poucos conforme você evolui o nível da agência. O sistema funciona de forma semelhante ao que foi visto em Diablo III: quanto mais alto o desafio, maior a quantidade de dinheiro e pontos de experiência que serão obtidos.

O game tem um esquema que dá mais pontos de experiência para agentes de nível baixo

A possibilidade de ajustar isso a qualquer momento faz com que não existam agentes que se tornam inviáveis, porque você os adquiriu em uma parte muita avançada da trama — basta abaixar a dificuldade para conseguir jogar com eles. Para complementar, o game tem um esquema que dá mais pontos de experiência para agentes de nível baixo, o que faz com que não seja preciso gastar muito tempo para nivelar sua equipe.

Após terminar a aventura principal, você tem a opção de voltar para a base-mãe e rejogar qualquer missão já completada (ou terminar as que você deixou de lado). Também há um sistema de missões globais (nas quais um agente fica indisponível durante certo período de tempo) e objetivos compartilhados com outros jogadores através da internet, mas nenhum deles é necessário (ou importante o suficiente) para serem considerados essenciais à experiência.

A definição de um “jogo ok”

Como acontece com todo game da Volition, Agents of Mayhem também traz sua dose de bugs — especialmente nos consoles. Entre aqueles que pude testemunhar está o surgimento de veículos dentro de estruturas, cenas que se carregam antes da hora caso você esteja usando um SSD na versão PC e momentos nos quais suas armas se recusam a atirar — felizmente, nenhum deles foi grave o suficiente para “quebrar” o game enquanto eu jogava.

Em geral, o novo trabalho da Deep Silver se encaixa naquilo que eu considero como um “jogo Ok” — sabe aquele tipo de experiência que até rende algumas horas de diversão, mas que você começa a esquecer assim que tira do console? É justamente isso o que acontece quando você decide que já teve o suficiente da experiência e parte para outro game.

Agents of Mayhem está longe de ser o pior jogo lançado em 2017, mas também não se aproxima das experiências mais marcantes que você vai encontrar neste ano. Caso você procure por mecânicas de ação divertidas (mesmo que um pouco repetitivas), o game consegue entregar isso durante certo tempo — mas a repetição excessiva de estruturas e um roteiro um tanto vazio fazem com que não seja dessa vez que a Volition conseguiu criar uma franquia tão marcante quanto Saints Row.

Para a realização desta análise, finalizei Agents of Mayhem em sua versão PlayStation 4 e joguei as primeiras missões da versão Steam.

Agents of Mayhem foi cedido pela Deep Silver para a realização desta análise