Em um primeiro momento, Dishonored 2 parece semelhante demais ao game que deu início à série em 2012. Após um curto tutorial (totalmente opcional), o jogador é apresentado a uma cena de corte no qual os protagonistas perdem tudo aquilo pelo que lutaram até o momento — fruto de um golpe articulado por elites ligadas a interesses externos.

Felizmente, não demora até que o jogo revele que, apesar de semelhante a seu antecessor, ele não se limita a simplesmente repetir o vimos no passado. Sim, temos aqui uma receita “clássica” de sequência, na qual mecânicas bem estabelecidas são mantidas (e aprimoradas), enquanto o que não funcionava muito bem é descartado, mesmo que certos erros persistam.

E isso não é algo ruim: quatro anos depois do primeiro Dishonored chegar ao PC, Xbox 360 e PlayStation 3, a indústria dos games ainda não entregou tantas experiências que consigam fazer frente ao que a Arkane ofereceu. Nesse contexto, a sequência traz uma experiência-base que se mantém bastante sólida e é temperada por uma série de melhorias que tornam tudo ainda mais divertido.

Similar ao passado, só que melhor

A história de Dishonored 2 pode ser considerada quase uma recontagem do primeiro game em sua essência. Novamente na pele do protetor do reino Corvo Attano ou da imperatriz Emily Kaldwin, você deve reunir forças para recuperar o controle sobre o reino de Dunwall e derrotar os responsáveis por arquitetar o golpe que o tirou do poder.

Para que isso seja possível, o jogador não somente tem que ir atrás de velhos aliados — como o inventor Anton Sokolov — como deve desmontar as peças que permitiram que a misteriosa Delilah ascendesse ao trono. A maior parte dessa missão se desenrola no reino de Karnaka, terra natal de Corvo que esconde muitos mistérios e figuras bizarras.

O quanto você vai aproveitar da trama depende muito de sua habilidade (e paciência) para ler os diversos documentos espalhados pelos mapas— algumas relações entre personagens e subtramas só podem ser entendidas dessa forma. Cada missão acontece em um mapa com dimensões bastante delimitadas, sendo que cada um deles pode ser considerado como uma pequena “sandbox” à qual não é possível retornar depois, então é bom ficar atento a tudo a seu redor para não perder nada.

Se tudo isso parece muito parecido com o primeiro Dishonored, é porque a Arkane não fez muito para mexer nas estruturas narrativas do título. As principais diferenças da sequência surgem na forma de situações que se desenrolam de maneiras um pouco fora do esperado e no fato de que a maior parte de seus inimigos têm a chance de ser vista sob um ponto de vista diferente.

Até mesmo Delilah, por exemplo, ganha a chance de explicar suas motivações e provar que muitas de suas ações também são guiadas por eventos que, analisados friamente, dão a ela certa razão. Assim como Dunwall, Karnaka é uma região onde ninguém pode ser considerado um “santo” e que o jogo de poder entre a aristocracia faz vítimas a todo o momento, muitas delas encubidas de lidar com as consequências de atos ruins feitos por outras pessoas — caso de Corvo e Emily.

Mais ferramentas para brincar

A jogabilidade de Dishonored 2 se trata de uma versão refinada do que vimos no passado, embora possa parecer familiar demais para quem decidir se aventurar com Corvo. No entanto, até mesmo o velho protagonista traz poderes novos que ajudam a renovar a experiência e não parecer que estamos simplesmente fazendo “mais do mesmo”.

Enquanto coube ao velho protetor do reino a maior parte das habilidades agressivas — que incluem dominar inimigos, parar o tempo para realizar execuções mais fáceis e invocar ondas de ratos assassinos —, a jovem Emily é mais voltada à furtividade. Além de poder literalmente puxar inimigos distantes, a imperatriz consegue se transformar em uma sombra que se esgueira por tubos de ventilação para derrotar inimigos desavisados.

Embora o game estimule atitudes mais furtivas, quem decidir simplesmente “partir para a porrada” também vai se divertir. O combate em primeira pessoa ainda é um pouco desengonçado, especialmente quando é preciso lutar com multidões, mas está muito mais funcional do que no passado.

Em contrapartida, quem prefere ficar em silêncio e não matar ninguém também ganhou mais opções na hora de agir. Agora você também tem a opção de pular sobre inimigos e derrotá-los de forma não letal, bem como minas que os paralisam, entre outras ferramentas que vão garantir que ninguém morra em suas mãos.

Esse conceito também se estende para os chefes, que podem ser mantidos vivos — o que, geralmente, representa um destino pior do que um túmulo. Optar por esse caminho geralmente significa um pouco mais de trabalho, mas a satisfação trazida após o trabalho extra é mais do que suficiente para compensá-lo.

Vale a pena terminar Dishonored 2 pelo menos duas vezes, cada uma com cada personagem. Da primeira vez, você deve gastar entre 10 e 15 horas para terminar o jogo, dependendo do quanto explorou os ambientes e gastou tempo lendo documentos — tempo que pode ser reduzido para umas 8 horas em uma segunda rodada na qual já se sabe mais ou menos tudo o que é preciso fazer.

Na dificuldade média, o game apresenta uma boa dose de desafio, especialmente nos momentos iniciais. Infelizmente, parece que as fases finais são mais fáceis do que deveriam — muito disso reflexo do fato de que, enquanto seus inimigos permanecem essencialmente os mesmos, seu personagem já está muito mais poderoso do que no início da aventura.

Assim como no jogo anterior, você pode melhorar Corvo e Emily da coleta de runas espalhadas pelos cenários (que nunca são suficientes para destravar todos os poderes) e de amuletos de sangue. Investindo nas melhorias adequadas, o jogador pode equipar um total de 12 acessórios que garantem efeitos como uma ligeira invisibilidade após matar alguém até a capacidade de recuperar vida após matar as infames moscas de sangue, entre outros.

Questões técnicas

Para fazer esta análise, tive acesso tanto à versão do game para o PlayStation 4 (com uma chave digital gentilmente cedida pela Bethesda) quanto no PC. Embora ainda haja certa disparidade entre a qualidade visual do game rodando no console de mesa e em um computador com boas especificações, quem optar pelo video game não vai se decepcionar com o trabalho da Arkane.

No console é possível notar certas quedas na taxa de quadros por segundo durante algumas cenas de corte, especialmente naquelas que mostram muitos elementos. Já o lançamento no PC foi marcado por um bug de áudio bastante notável, em que pequenos “estalos” e ecos são notados durante as falas dos personagens.

O elemento comum aos dois meios é a presença de alguns bugs de animações e personagens que ficam “travados” em elementos do ambiente. No entanto, a ocorrência desses problemas foi tão rara que eles surgem mais como uma curiosidade (que deve render bons vídeos para o YouTube) do que como algo que quebra a experiência.

Independente de onde você decidir jogar, Dishonored 2 conta com uma ótima tradução para o português brasileiro. Até é possível encontrar algumas falas com má sincronia labial e outras ditas em ritmo estranho, mas o trabalho geral da equipe responsável pela adaptação é excelente e merece ser destacado.

Uma sequência digna do trono

A maior crítica que pode ser feita a Dishonored 2 é o fato de que ele é muito parecido com o primeiro — o que não é exatamente um defeito. Com uma história bem escrita, ambientes interessantes que propiciam a exploração e dois personagens com habilidades bem diferentes entre, o game consegue cumprir muito bem o papel que se espera de uma sequência.

O novo título da Arkane não somente mantém o que já funcionava muito bem no primeiro, como consegue corrigir erros e preencher brechas que tornam ainda mais divertido jogar de maneira furtiva. O combate ainda não está exatamente “no ponto”, mas ainda assim consegue cumprir muito bem o seu papel.

Problemas técnicos como os bugs de áudio no PC e certos slowdowns nas plataformas de mesa atrapalham, mas felizmente podem ser corrigidos em patches. O que, claro, não nos exime da obrigação de alertas suas presença — mas, felizmente, nada do que testemunhados conseguiu quebrar nossa imersão.

Levando em consideração a existência de alguns problemas, é impossível dar a nota máxima para Dishonored 2. No entanto, ele merece um local de destaque entre os games lançados este ano e deve ser considerado por qualquer premiação de “Jogo do Ano” que se leve a sério — ou que leve em conta jogos lançados próximos a dezembro, período um tanto ingrato para quem deseja participar de premiações do tipo.

Dishonored 2 foi analisado a partir de um código digital disponibilizado pela publicadora Bethesda