Dragon Quest Builders é um dos melhores exemplos do motivo pelo qual mais jogos deveriam ter demonstrações gratuitas liberadas. Não fosse pela oportunidade de testar a versão limitada oferecida pela Square Enix, provavelmente eu teria deixado de lado uma das experiências mais divertidas e viciantes de 2016.

Embora sempre tenha sido um fã da série de RPGs, a ideia de unir seu universo a uma “cópia” de Minecraft inicialmente não me pareceu atraente. Não me entenda errado: gosto das possibilidades oferecidas por títulos semelhantes, como Terraria e Starbound, mas nunca fui particularmente atraído pelo lado que envolve criar os próprios objetivos e construir livremente com os itens que me eram oferecidos.

E é justamente nesse quesito que Dragon Quest Builders brilha: mais restritivo do que Minecraft em suas ferramentas de criação (e nem é preciso falar sobre a influência do famoso título, que fica clara desde o início), o título tem como principal atrativo oferecer missões que dão propósito aos sistemas desenvolvidos pela Square. E claro, também ajuda muito o fato de ele usar muito bem elementos que tornaram a franquia um dos pilares do estilo RPG.

O poder da construção

Builders compartilha o mesmo universo do primeiro Dragon Quest, lançado há 27 anos para o Nintendinho. A diferença fica por conta da história: em vez de o Dragonlord ter sido derrotado por um grupo de heróis, seus planos deram certos e o mundo foi coberto pela escuridão — no processo, a humanidade perdeu seu principal dom: a capacidade de criar.

Anos depois, você assume o papel do Construtor, única figura desse mundo capaz de construir e inventar novas coisas. Esse poder deve ser usado para restaurar algumas das principais cidades do jogo original e atrair para lá os sobreviventes da catástrofe.

O processo não agrada nada ao Dragonlord, o que significa que você também vai ter que investir em equipamentos e proteções para impedir que seu trabalho seja destruído. Após assegurar a segurança de uma região, é preciso deixar todo seu progresso de lado para ajudar em outro local — situação que se repete quatro vezes no total.

O sistema de construção é familiar a qualquer pessoa que já jogou um game do estilo: usando as ferramentas à sua disposição, você pode destruir blocos que se transformam em recursos com raridade e atributos variados. Da mesma forma, os itens deixados pelos monstros que habitam esse universo também podem ser aproveitados para criar alimentos, equipamentos e itens estéticos.

Conforme você progride no modo história, Dragon Quest Builders vai liberando novas receitas através do cumprimento de missões que vão da construção de novos ambientes até a eliminação de uma onda de monstros que está invadindo a cidade. O surgimento de novidades ocorre em ritmo constante, mas você nunca se sente intimidado pelo número de escolhas possíveis — algo que torna a experiência ótima para quem está dando os primeiros passos no gênero.

A necessidade de deixar todo seu progresso para trás toda vez que uma nova região aberta, que poderia ser algo negativo, acaba se transformando em uma qualidade. Após passar de 10 a 15 horas em um local e já ter domínio sobre todos os seus elementos, é interessante chegar em uma nova área e ser forçado a repensar receitas e a maneira como você vai enfrentar seus oponentes — enquanto o ferro é abundante na primeira região, ele não pode ser minerado na segunda área, o que força o jogador a ter que buscar novas opções de materiais.

Essa constante renovação de desafios ajuda a manter a experiência interessante mesmo depois de várias horas, evitando a fadiga natural a jogos de coleta. A Square Enix diminui a frustração ao mínimo possível: há uma barra de fome, mas ela diminui lentamente e sempre há uma abundância de alimentos disponíveis. Da mesma forma, não demora até você conseguir acessar um baú que permite a transferência remota de itens e elimina problemas de gerenciamento de inventário, o que permite coletar tudo o que surge pela frente sem qualquer culpa.

O game também oferece uma experiência mais semelhante à Minecraft no modo conhecido como “Terra Incognita”, em que não há objetivos e seus feitos permanecem para sempre. Disponível após você completar a primeira das quatro partes da campanha, a opção tem seus conteúdos restringidos pelo quanto você avançou na história principal — ou seja, a melhor experiência possível acontece somente após o jogador finalizar a campanha.

Outra forma que a Square Enix encontrou de prolongar o game são os desafios específicos a cada uma das quatro missões. Infelizmente, essa opção é marcada por uma escolha que se mostra frustrante: você só sabe o que pode fazer para aumentar sua pontuação (e desbloquear novos itens) depois de finalizar um cenário, o que não contribui muito para você querer voltar até ele e recomeçar tudo de novo somente para cumprir uma missão secundária.

Câmera e combates: a parte ruim

Note que até o momento só falei coisas boas de Dragon Quest Builders, e isso acontece porque o game realmente tem muitas qualidades. No entanto, ele peca por oferecer um sistema de combate extremamente raso, que se torna problemático por se tornar o foco da aventura em diversos momentos.

Há somente um tipo de ataque, cujo dano está atrelado às estatísticas de seu personagem: não há sistema de level up, o que significa que é preciso investir na criação de equipamentos para causar mais dano aos adversários e para resistir às suas empreitadas. E, mesmo com as opções mais poderosas em mãos, a única diferença nas batalhas é a quantidade de vezes que você vai ter que apertar um botão para vencer.

Cientes dessas limitações, os inimigos têm ataques previsíveis e animações bastante extensas que tornam fácil matá-los. Em outras palavras, a estratégia que você mais vai usar envolve bater em um alvo duas ou três vezes, correr um pouco para desviar de ataques e voltar a repetir a etapa anterior até que tudo tenha acabado.

O sistema de combates é tão fácil (e raso) que, na maior parte do tempo, o dano que você vai receber é resultado de ter se aproximado demais de um adversário. Isso é algo necessário visto o curto alcance de suas armas, constituídas essencialmente por marretas e espadas criadas com diferentes materiais.

Não demora muito para que você perceba que, na maior parte das vezes, a melhor saída é simplesmente sair correndo e nem dar atenção para seus inimigos — a não ser nos casos em que você precisa de algum item deixado por algum deles. Infelizmente, essa opção não surge nos combates obrigatórios em certos pontos da história, tampouco durante os confrontos com chefes que marcam o final de cada capítulo.

Outro problema de Dragon Quest Builders é sua câmera, que apresenta diversos problemas nos momentos em que você está em ambientes internos. Até dá para escapar disso evitando construir tetos para suas construções (algo que não é essencial para completá-las), mas infelizmente o mesmo não acontece quando você está minerando metais raros dentro de uma montanha.

O jogo até tenta fazer alguns ajustes automáticos que “quebram o galho”, mas não é difícil se ver em uma situação na qual você não sabe para onde está indo. Nesse caso, a Square Enix acertaria mais caso fornecesse a possibilidade de jogar em primeira pessoa nem que fosse nessas situações específicas.

Honrando o nome Dragon Quest

Devo me dizer surpreso com o tanto que Dragon Quest Builders conseguiu capturar a minha atenção. Mesmo após mais de 40 horas de jogo, me sinto compelido a ligar o PlayStation 4 para gastar uma ou duas horas explorando os ambientes do jogo e tentando encontrar receitas ou companheiros que deixei passar — muitos deles fáceis de ignorar quando você está jogando o game com a única intenção de finalizá-lo.

Esse não é o jogo com o sistema de criação de objetos mais abrangente do mercado, tampouco é o RPG mais profundo que a Square Enix já fez. No entanto, ele consegue unir essas duas facetas de uma maneira muito boa — e não é nenhum problema o fato de ele saber utilizar bem o carisma da série Dragon Quest e apostar em um roteiro que sabe agradar tanto a novos jogadores (tanto de idade quanto de experiência) quanto àqueles que jogam há tempos e procuram histórias mais inteligentes.

Builders não é o jogo mais original do mundo, tampouco vai registrar o mesmo número de vendas que outras experiências “Triplo A” lançadas no mesmo período. No entanto, ele não precisa disso: repleto de charme e com uma ótima relação entre desafio e recompensa, o game deve encontrar um espaço no coração (e na coleção) de quem procura por uma experiência leve, viciante e capaz de deixar você com um belo sorriso no rosto mesmo depois de dezenas de horas de exploração.

Dragon Quest Builders foi adquirido pelo redator Felipe Valente para a realização desta análise