Hoje mais reservados ao mercado indie, remasterizações e séries da Telltale, os "point and click" foram uma febre nos anos 1980 e 1990. Histórias incríveis de aventura, personagens memoráveis, puzzles que exigiam uma mistura de lógica, tentativa e erro com uma pitada de sorte... Essas características constituíam a essência de clássicos como Grim Fandango,Day of the Tentacle, The Dig e a franquiaMonkey Island, além de muitos outros que fizeram história no PC.

Notou que faltou um título ali? É justamente dele que vamos falar: Full Throttle, clássico absoluto da LucasArts lançado em 1995 que acaba de ganhar uma remasterização. A história de Ben e sua moto fez parte da vida gamer de muita gente e agora está de volta com um visual renovado e todos os elementos do original.

Mas será que os veteranos precisam mesmo voltar ao mundo bizarro e perigoso das gangues de motoqueiros? Os novatos não vão estranhar muito o estilo dos quebra-cabeças e a jogabilidade jurássica? Suba em sua moto, pise fundo no acelerador e confira abaixo a análise do TecMundo Games para Full Throttle Remastered.

"Toda vez que sinto cheiro de asfalto, eu penso em Maureen..."

Se você não jogou o original ou passou os últimos 22 anos da sua vida gamer na caverna dos Cavefish, vale a pena repassar rapidamente a história. Você é Ben, atual líder da gangue dos Polecats, em uma região quase desértica dos Estados Unidos no ano de 2040.

Tudo começa com um encontro entre a gangue e Malcolm Corley, CEO da maior fabricante de motocicletas do país e a única que ainda faz veículos motorizados, não flutuantes. Porém, o que era para ser um encontro entre colegas acaba se tornando uma emboscada: Ripburger, outro executivo da companhia, incrimina os Polecats e tenta tomar o controle dos negócios para si. A partir daí, Ben precisa limpar o nome, salvar os companheiros e impedir que a Corley Motors abandone as duas rodas e passe a... fabricar minivans.

O universo de personagens do jogo é incrível. Ben é um grande protagonista e, mesmo falando o mínimo possível, logo entendemos a personalidade durona e leal dele. A mecânica Maureen é igualmente interessante, sendo uma das poucas pessoas que não se intimidam com o motoqueiro. As demais gangues e outras figuras com as quais você tromba por aí não deixam de ser estereótipos de pessoas duronas, musculosas ou bizarras — mas é isso que torna a história tão divertida.

Ajustando a lataria

Full Throttle Remastered teve os gráficos totalmente refeitos à mão e em 3D, fazendo parecer que ele é praticamente um novo jogo. Texturas estão completamente remodeladas, personagens ganharam contornos novos e muito mais "limpos", e os cenários estão mais vivos (ou depressivos, como a cidade de Maureen) do que nunca.

A boa notícia é que todas essas mudanças não tiram a identidade do game nem deixam o visual "infantilizado" por conta do novo estilo das animações. Além disso, é difícil trabalhar com as cores em um jogo que traz muitos elementos repetidos, como a estrada e gangues de uniformes parecidos. Há o risco de ele ficar repetitivo e monótono, mas Full Throttle evita isso totalmente.

Quer outra boa notícia? Dá para alternar entre os estilos visuais remasterizado e original (e para telas mais quadradas) com o pressionar de um botão ou da tecla "F1", no caso do PC. É muito divertido relembrar como era o visual antigo — bem mais simples e pixelizado do que você se lembra, pode apostar — e comparar com o excelente trabalho de remasterização da Double Fine, produtora que conta com o próprio Schaefer.

Só que nem todo o trabalho parece ter sido feito pela desenvolvedora. Talvez justamente para manter o funcionamento do jogo da década de 1990, a taxa de frames cai bastante em alguns momentos de maior movimentação, como nas lutas, ou com a presença de vários elementos na tela. A transição entre cômodos ou até cenas não é muito fluida e causa estranhamentos, especialmente quando todo o resto da parte gráfica está tão polido.

O som do motor

Nem há muito o que discutir aqui. A trilha sonora de Full Throttle já era impecável antes, com uma grande mistura de blues e rock, com músicas que não poderiam embalar melhor uma aventura envolvendo motos e estradas. Os efeitos sonoros não ficam atrás, do motor dos veículos às portas abertas com um chute do protagonista.

As vozes são quase todas canastronas e exageradas — e isso é um elogio. A partir dos diálogos e do tom de cada personagem, percebemos que Ben tem um estilo curto e grosso, sem deixar o humor de lado. Maureen é decidida e forte, Corley é um velhinho gente boa e Father Torque de fato passa a experiência que parece ter. Ripburger é um caso especial: ele é dublado por Mark Hamill, conhecido por ser Luke Skywalker na franquia Star Wars e a voz do Coringa no desenho animado dos anos 1990 e nos principais games da série Arkham. Aqui, Hamill já dá uma prévia do que será a dublagem que passamos a respeitar com o vilão da DC Comics, com algumas palavras arrastadas e a voz levemente rouca, porém um pouco mais sóbria.

Assim como no caso dos gráficos, você também pode alternar entre o original e a forma remasterizada do áudio em geral e das músicas. O resultado é igualmente bom em ambos os casos, e oferecer os dois é o ideal em uma grande homenagem, como é o caso do game.

"Eu não vou colocar a minha boca nisso"

Na época em que foi lançado originalmente, Full Throttle revolucionou ao adicionar uma série de elementos à jogabilidade point and click, especialmente o menu de ações bastante completo e intuitivo. Para interagir com alguém ou um objeto, você deve selecioná-lo para abrir uma janela de opções. Lá, basta escolher uma parte do corpo para obter um resultado — olhos para observar, boca para encostá-la em algo ou falar com alguém, luva para tocar ou bota para chutar.

Esse formato é bem dinâmico e faz você ter um controle completo das ações de Ben. Porém, como os jogos do gênero e da época, vários dos puzzles simplesmente não fazem o menor sentido e não necessariamente parecem a coisa mais óbvia a ser feita. Isso não é uma crítica, já que esse estilo predominou e fez sucesso na época. Quer algumas dicas? Leia bem os diálogos (não há qualquer problema na tradução das legendas para o português brasileiro), analise bem os cenários e volte a cada quarto quantas vezes for necessário.

A 'experiência completa' do point and click é com o mouse e algum uso do teclado, mas o jogo responde surpreendentemente bem com o uso de um joystick

Ainda falando dos controles, o mapeamento de botões é interessante e você consegue se acostumar rapidamente.

Porém, aqui é preciso analisar o jogo tanto como um título de 1995 quanto uma remasterização de 2017. Por isso, é mais do que justo reclamar da jogabilidade em um determinado segmento em que você está em uma arena e deve controlar um veículo. A parte não é longa, mas os comandos são sofríveis e podem tirar a paciência de muita gente. Há quem critique bastante as lutas em cima da moto contra rivais, mas você rapidamente pega o jeito desses combates.

Extras

O jogo ainda apresenta alguns poucos presentes aos fãs na forma de extras. É possível escutar toda a trilhas sonora individualmente e acessar dezenas de artes conceituais e rascunhos, alguns utilizados e outros não. Eles dão uma ideia do visual original de alguns personagens e cenários e vale ao menos uma conferida. Além disso, existe a opção de você ligar os comentários do criador do game, Tim Schaefer, que discute com a equipe alguns elementos do game durante a jogatina. Quem já cansou de zerar Full Throttle encontra aqui uma boa justificativa para fazer isso ao menos mais uma vez.

Vale a pena?

Full Throttle Remastered traz todo o espírito do original, incluindo seus pequenos e breves defeitos. Infelizmente, o jogo é realmente curto e não são muitas as ações que você executa no comando de Ben — além disso, quem já sabe de cor tudo o que precisa fazer vai passar voando pela aventura. Felizmente, o que está presente no game já é mais do que o suficiente para algumas horas de diversão e/ou nostalgia. Isso vale tanto para quem riscou o CD original de tanto jogar quanto para os que só ouviram histórias de jogadores mais velhos sobre Ben e sua gangue.

A remasterização ficou incrível, sem perder o espírito de Full Throttle, mas repaginando completamente os gráficos já datados. A trilha sonora continua impecável e a dublagem é a ideal para esse tipo de aventura, com um trabalho muito bem-feito de transformação dos sons para a alta definição. Problemas antigos permanecem — e provavelmente há quem reclamaria se eles fossem solucionados — e a queda de framerate é notável, mas nada estraga a experiência para novatos ou veteranos.

A jogabilidade se mantém de fácil domínio e bastante dinâmica, com você querendo experimentar todas as opções de diálogo e interação para ouvir as piadas e possibilidades. Os puzzles podem deixá-lo preso por algum tempo, mas respire fundo e evite ao máximo apelar para um detonado.

O jogo não está nada salgado no PC: custa cerca de R$ 22 em promoção de lançamento, o que significa que a compra é mais que recomendada. Já a PSN traz o título a um valor um pouco mais salgado, cobrando R$ 45 para PS4 e PS Vita (mesmo valor de Day of the Tentacle Remastered e R$ 15 a mais que Grim Fandango Remastered). Se você achou um exagero, tudo bem: espere uma promoção ou que ele faça parte de um pacote da PS Plus — mas não deixe de jogá-lo de forma alguma. Mais de 20 anos depois, o passeio continua inesquecível.

A chave deste jogo foi cedida pela GOG.com.