Lançado originalmente para o PlayStation Vita, o Gravity Rush original foi uma das poucas grandes apostas que a Sony fez no portátil. Embora, assim como o aparelho, o título não tenha vendido excepcionalmente bem, ele se mostrou competente o suficiente para se tornar parte obrigatória do catálogo — o que permite enquadrá-lo facilmente na categoria “sucesso cult”.

Após ganhar uma “segunda chance” na condição de um remake lançado para o PlayStation 4, agora a série tem a oportunidade de realmente brilhar na forma de Gravity Rush 2. Exclusiva à plataforma de mesa da Sony, a aventura mostra as peripécias de Kat em um novo universo ao mesmo tempo em que fecha as pontas soltas deixadas pelo capítulo inicial.

Oferecendo uma experiência que mistura ação, um roteiro com críticas sociais e diversas pitadas de humor, o game é o que podemos chamar de uma “joia imperfeita”. Ganhando pontos pela experimentação e pela trilha sonora surpreendentemente eficiente, ele é uma boa opção para quem está em busca de algo diferente em um período um tanto “magro” para grandes lançamentos.

Um novo universo

Após uma breve introdução que retoma de leve os acontecimentos da aventura anterior, Gravity Rush 2 nos apresenta Kat em uma situação inusitada. Sem seus poderes, ela passa seus dias minerando cristais para garantir sua sobrevivência junto à benfeitora que a resgatou após uma tempestade dimensional.

Conforme o esperado, essa introdução é breve e não demora muito até que você consiga retomar os poderes de Kat e passe a explorar um mundo aberto com dimensões generosas. No entanto, esse trecho breve é suficiente para introduzir ao jogador uma seleção de coadjuvantes bastante interessante e que será importante para o desenvolvimento da trama principal.

Formado por ilhas flutuantes, o mundo do game vai revelando aos poucos as suas verdadeiras dimensões. Usando os poderes de Kat — um dos grandes diferenciais da série —, você consegue explorar a verticalidade desse universo e perceber a maneira como os cenários ajudam a denotar as diferenças sociais entre seus moradores.

Enquanto os ricos vivem nas ilhas mais altas e têm acesso direto ao brilho do Sol, cidadãos pobres têm que se contentar em viver em favelas que raramente recebem iluminação. Também importante para o roteiro, essa divisão não chega a ser “jogada na cara” dos gamers, mas é evidente o suficiente para que você entenda a crítica social que os desenvolvedores desejaram fazer.

Brincando com a gravidade

Assim como acontece no primeiro jogo, Kat pode controlar livremente a gravidade. Isso significa que o jogador tem a liberdade para definir qual lado é considerado “para baixo” enquanto sua barra de poder (que se recarrega automaticamente) durar — o que possibilita que você literalmente “caia para baixo” se assim desejar.

É preciso avançar até metade da história para desbloquear todos esses poderes

A sequência também introduz novas habilidades baseadas em associações com a gravidade da Lua e com a de Júpiter. Enquanto o primeiro poder faz com que os pulos de Kat sejam mais leves e seus ataques mais rápidos (embora mais fracos), o segundo torna praticamente impossível pular e faz com que seus movimentos se tornem mais arrastados — em compensação, os ataques da protagonista ganham um poder bastante devastador.

Apesar de você poder mudar rapidamente entre esses poderes usando a touchscreen do Dual Shock 4, o game costuma impor limitações que impedem o potencial oferecido por eles. Também decepciona um pouco o fato de que é preciso avançar até metade da história para desbloquear todas essas habilidades, algo que faz com que a maioria dos jogadores acabe se acostumando demais com as capacidades originais de Kat e se contentem somente com elas.

Mundo aberto e missões secundárias

Embora as versões básicas dos poderes sejam suficientes para terminar a aventura sem grandes problemas, você também pode evoluí-los em diversos quesitos. Para isso é preciso coletar uma série de cristais espalhados tanto pelo mundo aberto (sua principal fonte deles) quanto por algumas das fases pelas quais o jogador passa.

E é justamente esse um dos elementos que ajuda a denunciar o quanto o mundo de Gravity Rush 2 é “vazio” quando comparado ao de outros jogos. Além de ser possível interagir somente com uma quantidade limitada de NPCs, o fato de a maioria das missões acontecer em espaços separados dá a impressão de que as ilhas voadoras servem mais como um hub gigantesco do que como uma área essencial para o desenvolvimento da ação.

O jogador tem à disposição mais de 40 missões secundárias

Além das 21 missões da história principal, o jogador tem à disposição mais de 40 missões complementares com objetivos e recompensas variadas. Embora a maioria delas peque pela repetição (muitas envolvem só levar um item de um lugar a outro ou matar determinada quantidade de inimigos), elas se destacam por oferecer um grande aprofundamento dos personagens secundários.

Fora isso, você também pode participar de uma série de desafios que envolvem ações como entregar jornais o mais rápido possível ou derrotar inimigos em cenários fechados e também com limitações de tempo. Cumprir essas tarefas ajuda ainda a aumentar o nível de Kat, embora estranhamente o game não tenha um indicador da quantidade de experiência que você possui ou do nível que a personagem está no momento.

Não é só de ação que vive o game

Embora você passe a maior parte de seu tempo em Gravity Rush 2 voando e batendo em inimigos, não é somente isso que o jogo oferece. Em diversas missões você vai ter que usar a câmera obtida logo nos momentos iniciais, seja para registrar fotos de garotas bonitas para um idoso ou como forma de denunciar ações ilegais de agentes governamentais.

Infelizmente, esses momentos estão ligados a uma das áreas mais problemáticas do game: as missões furtivas. Oferecendo poucas ferramentas para você saber a localização de inimigos, o game é excessivamente punitivo — em outras palavras, é provável que o jogador tenha que refazer diversas vezes o mesmo trecho antes de, memorizadas as posições dos adversários, conseguir progredir.

A sensação que fica em muitos momentos é de que Gravity Rush 2 quer que você simplesmente “adivinhe” qual é o melhor caminho a seguir, sem oferecer rotas paralelas o suficiente para justificar o cenário aberto que é apresentado. Para completar, esses momentos são especialmente irritantes por não somente impedir o uso dos poderes da protagonista como por abusar de ambientes fechados — algo que denuncia uma câmera bastante problemática.

Enquanto em locais abertos o jogo é competente em focar na ação, essa história é bastante diferente em ambientes mais compactos. Levando em consideração que estamos lidando com uma personagem capaz de andar no teto ou nas paredes, há momentos em que você simplesmente não consegue entender o que está acontecendo porque a câmera se provou incapaz de captar elementos importantes.

Trilha sonora para ouvir com fones

Embora a apresentação de Gravity Rush 2 seja muito boa, adotando um estilo visual que usa técnicas de cell shading para criar um efeito que lembra bastante animes, esse não é o elemento que se destaca no jogo. Se há algo que você vai fazer você se lembrar do jogo após o fim da aventura é sua trilha sonora sensacional.

Se há algo que vai fazer você se lembrar do jogo após o fim da aventura é sua trilha sonora sensacional

Usando diversos estilos de jazz, os desenvolvedores conseguiram criar músicas que ajudam a enriquecer a experiência e dar uma “cara” única a diferentes localizações e situações. Entre os momentos mais marcantes está a cena em que Kat é obrigada a cantar junto a uma banda que, aos poucos, começa a acompanhar seu canto vacilante.

Ainda falando da parte técnica, tive a grata surpresa de testemunhar que Gravity Rush 2 não tem qualquer problema em rodar de maneira estável na versão “convencional” do PlayStation 4. Em compensação, tanto ela quanto o modelo Pro acabam demorando um pouco demais na hora de carregar algumas texturas, gerando o famoso efeito “pop-in” — felizmente, isso não é algo que chega a atrapalhar a jogabilidade como um todo.

Vale a pena?

Gravity Rush 2 é um game que apresenta uma história bastante divertida e que, mesmo não se aprofundando em todos os temas que aborda, consegue fazer críticas sociais sem que isso se torne algo pesado. Apostando em uma jogabilidade única, o título não acerta naquilo a que se propõe, mas definitivamente é uma experiência que merece a sua atenção.

Você provavelmente vai se irritar com a câmera e se irritar com a repetição apresentada em algumas missões, mas isso não é motivo para você desistir das aventuras de Kat. Enquanto aqueles que seguirem somente a história principal vão garantir aproximadamente 15 horas de diversão, esse tempo pode ser multiplicado em várias vezes por quem explorar todas as missões secundárias e tarefas opcionais.

Fechando pontas soltas deixadas pelo primeiro game e oferecendo uma trilha sonora nada menos que sensacional, Gravity Rush 2 é prova de que investir em mecânicas consideradas “malucas” pode render bons resultados. Ele não chega a ser exatamente “obrigatório”, mas vale a pena dar atenção ao jogo, nem que seja para entender por que tantos donos do Vita consideram a aventura original tão memorável.

Gravity Rush 2 foi analisado a partir de sua versão digital finalizada cedida pela Sony