The Legend of Zelda: Breath of the Wild é um jogo que respeita sua inteligência. Dizer isso não deveria ser algo chocante, mas quem jogou os games anteriores da série — especialmente Skyward Sword — sabe o quanto a Nintendo parece ter medo de que os jogadores descubram por conta própria o que seus jogos têm a oferecer.

Felizmente, em nenhum momento o novo game da série passa essa sensação. Após dezenas de horas explorando a versão Wii U do game, continuo a aprender sobre novas mecânicas e possibilidades de maneira natural. Em vez de ser assustadora, a falta da sensação de que há alguém “segurando minha mão” é libertadora.

Pela primeira vez em muitos anos, um jogo da série Zelda realmente parece ser uma grande aventura — uma na qual eu posso decidir o que fazer a qualquer hora. Muitas vezes essas decisões me fazem entrar em uma área repleta de inimigos perigosos ou descobrir um segredo totalmente fora de rota. Independente do que eu encontro, o resultado é sempre semelhante: uma mistura de satisfação com o aprendizado de algo novo.

Mudanças

Desde que Ocarina of Time foi lançado, a série seguiu uma lógica bastante previsível em seus lançamentos posteriores. Você pode argumentar que a temática e o visual de Wind Waker e Twilight Princess são diferentes, mas todos esses jogos seguem o esquema “vá até um dungeon, pegue o item que tem lá, derrote o chefe, parta para outro e repita”.

Breath of the Wild acaba com isso sem nenhuma cerimônia. Em questão de uma ou duas horas de jogo, você já tem todas as ferramentas que precisa para vencer qualquer quebra-cabeça. Confesso que isso me deixou com certo medo de que os desafios se tornassem limitados como consequência, mas fico feliz em saber que estava errado.

O jogo deixa quase completamente de lado o sistema de labirintos da série

O jogo deixa quase completamente de lado o sistema de labirintos da série — quatro opções nesse sentido ainda permanecem — para se focar em “Santuários” que apresentam desafios mais contidos. A experiência oferecida por cada um deles é relativamente breve, mas é muito difícil sair de algum deles sem um sorriso no canto da boca ou ao menos surpreso pela maneira inteligente como a Nintendo usou seus sistemas.

A maneira como você explora ambientes também mudou bastante. Encontrou algo interessante em cima de uma montanha? Não é mais preciso esperar obter um hookshot para investigar: basta andar em direção ao local e começar a escalar — seu único limitador é a quantidade de stamina disponível (que pode ser aumentada de várias maneiras).

Isso proporciona um senso de descoberta que estava ausente há anos na série. A Nintendo realmente entendeu as críticas feitas à linearidade de Skyward Sword e criou um mundo livre para explorar e que não fica incomodando o jogador para que ele siga um objetivo. Isso abre a possibilidade tanto de encontrar equipamentos incrivelmente poderosos “na hora errada” quanto de partir para a batalha final logo de cara — algo que provavelmente você não vai querer fazer.

Um Zelda desafiante

Outra “herança maldita” que Ocarina of Time deixou em Zelda foi a facilidade crescente nos jogos da série. O sistema de Z-Targeting foi revolucionário para sua época e funciona muito bem, mas a restrição que determinava que somente um inimigo atacava por vez (com uma outra exceção) gerou uma série de jogos com combates muito pouco desafiantes.

Breath of the Wild mantém parte dessa estrutura, mas muda completamente as regras. Agora não há mais isso de “respeito”, e grupos de inimigos vão fazer tudo o que podem para te derrotar o quanto antes — o que não é exatamente um problema quando você está lidando com grupos pequenos e fracos, mas se torna um desafio grande ao lidar com criaturas mais poderosas.

Isso faz com que seja preciso pensar muito bem antes de realizar um ataque no jogo. Além de avaliar bem a força de seus adversários, é preciso ficar de olho em vigias (que podem ser abatidos com a combinação de furtividade e flechas bem miradas) e em elementos do ambiente — um barril explosivo próximo a uma lamparina é uma ótima solução para um ataque inicial impactante, por exemplo.

O game não tem medo em aumentar subitamente seu nível de dificuldade e em deixar clara a mensagem de que você não está preparado para certos desafios. E essa “preparação” não envolve somente ganhar mais corações ou comprar equipamentos, mas também passa por saber cozinhar alimentos e poções fortificantes ou simplesmente em “ficar bom”.

não basta ter as ferramentas certas, é preciso saber usá-las

Tal qual um Dark Souls, Breath of the Wild apresenta uma série de inimigos que você só vai conseguir vencer com a observação de seus padrões de ataque e com o uso das ferramentas certas. Nesses casos, apelar para o modo “força bruta” raramente rende resultados diferentes da morte: não basta ter as ferramentas certas, é preciso saber usá-las para conseguir progredir.

E é justamente isso que faz com que o mundo aberto do jogo funcione tão bem: são pouquíssimos os desafios que não podem ser vencidos meramente na base da observação e do uso inteligente das ferramentas que você tem a seu dispor. E, claro, sempre há a opção de correr e deixar no mapa uma marcação que indica que é preciso voltar a algum lugar quando Link estiver mais forte.

História que também muda regras

O novo Zelda também acerta ao apresentar sua história de maneira diferenciada em relação aos jogos anteriores. Ainda há um Ganon, uma princesa Zelda e um Link, mas eles são mostrados de maneira muito mais desenvolvida e emotiva do que no passado — grande parte devido às cenas de animação que finalmente incorporam atuações de voz.

Sem entrar em spoilers, basta dizer que a Nintendo aposta em uma trama com nuances muito mais bem-desenvolvidas do que em jogos anteriores. Não é mais uma simples história de “escolhido que encontra a princesa e tem que derrotar o mal”, mas sim algo que envolve sentimentos conflitantes e uma dose generosa de perda.

A desenvolvedora também soube aproveitar muito bem a cronologia oficial da série, sem se prender a ela. Há diversas referências a aventuras anteriores — algumas sutis, enquanto outras nem tanto — que devem suscitar em uma boa dose de discussões e teorias entre os fóruns e sites especializados em Zelda.

Análise completa em breve

Com mais de 40 horas em Breath of the Wild, sinto que ainda há muito a descobrir sobre o game. Ainda não abri duas das áreas imensas que o jogo oferece, tampouco explorei tudo o que as histórias e as mecânicas têm a oferecer — o que é algo ótimo, visto a dificuldade que outras experiências de mundo aberto recentes têm em se manter frescas.

A análise completa do título vai ser publicada em breve aqui no TecMundo Games, mas já posso adiantar que esse é o tipo de jogo que lembra o porquê da Nintendo ser reconhecida como uma grande empresa. Ouso dizer que, tamanha sua qualidade, esse é um título da série que deve ser tão influente e lembrado daqui há alguns anos quanto Ocarina of Time, que finalmente encontrou um lançamento capaz de competir com seu legado.