Este é um artigo pessoal e as visões desta matéria não necessariamente refletem a opinião do TecMundo Games.

Apostar em novas formas de jogar video game é sempre uma tacada de risco. Assim sempre foi, assim é e sempre será na indústria de jogos eletrônicos. Sentar na poltrona, ligar o console, usar um joystick comum e dar o play é a prática mais tradicional – e eternizada – da qual os puritanos jamais vão abrir mão.

Historicamente, sempre foi assim. E, quando alguém aposta em inovação, é natural que surjam questionamentos de todos os lados. Faz parte da indústria: ela se pergunta se aquela moda deve, de fato, se transformar em uma tendência ou se é fogo de palha. Foi exatamente assim com os grandes adventos da tecnologia: 3D, realidade virtual, realidade aumentada, controles por movimento e inúmeras outras entradas chegaram, ficaram, algumas enjoaram e várias saíram de cena.

É cíclico. Assim é o ecossistema da tecnologia e da experiência que temos com video games. Com tudo isso em mente, a Nintendo, mais uma vez, quer apostar em uma maneira distinta de oferecer, aos jogadores, uma experiência híbrida: jogar na TV e continuar a jogatina em uma tela que pode ser transportada para qualquer lugar. No passado, uma distopia; agora, no presente, uma realidade. Assim é o Switch.

Um console que declaradamente não quer entrar em disputas com PS4 e Xbox One, mas sim seguir um trajeto próprio, essencialmente voltado aos fãs, ao mesmo tempo que traz recursos conceitualmente ambiciosos e, na prática, igualmente audaciosos.

Comprei o Switch no segundo dia de vida do console (4 de março), e, por sugestão do nobre redator Paulo Guilherme, preparamos uma “coluna dupla” com os dois lados da moeda: por que o Switch tem tudo para vingar, com a faca e o queijo na mão, e por que ele pode falhar – texto que você pode ler clicando aqui. Prestei-me a falar bem sobre o console com a experiência que estou tendo em casa até agora. Não vou me estender muito e quero enaltecer os principais benefícios do Switch, observando o horizonte:

Leve aonde quiser!

A proposta híbrida do Switch é seu principal chamariz. É, conceitualmente, uma noção que povoa nosso imaginário dos sonhos há muito tempo. Na prática, era difícil conceber a ideia. Eu mesmo sempre almejei isso. Ando de ônibus todos os dias para ir e vir do trabalho, uso metrô, me desloco para cobrir eventos e também viajo com essa mesma finalidade.

Iniciar uma jogatina em casa e continuar de onde eu estiver parece até algo abstrato. É fantástico saber que posso prosseguir com meu Zeldinha (que por acaso reserva uma centena de horas) onde quer que eu esteja. Ninguém ousou explorar a ideia dessa forma antes, e a Nintendo deu o pontapé inicial mais uma vez – assim como fez com o Wii, o 3D sem óculos do 3DS e a concepção mal-executada do Wii U, cuja redenção deve vir, agora, pelas mãos do Switch. E tantas outras vezes no passado, com a força que a Big N tradicionalmente conquistou no mercado de portáteis.

Convenhamos: o Wii U trouxe o rascunho de uma ideia que poderia ser legal, mas se destrambelhou por causa de decisões pífias – e uma absurda carência de jogos. Não ligar para a concorrência é uma coisa; oferecer uma plataforma que carece de conteúdo é outra. O Switch pode sobreviver tranquilamente no longo prazo se souber aproveitar tudo que tem à mão da melhor maneira possível. E isso é especialmente importante para os third-parties, viu, Nintendo?

Online simples e funcional

O sistema online da Nintendo não se compara à PSN ou à Xbox Live. Mas essa afirmação não tem o intuito de denegrir a empreitada da Nintendo. Pelo contrário: a sobriedade e o minimalismo do Switch são tão notórios que você consegue ficar sem a menor saudade daquele monte de coisas emperequetadas da concorrência.

É apostar no bom e velho “menos é mais”, que os publicitários tanto amam defender (e com razão, diga-se). Tá certo que a interface do console ainda é muito “crua”, mas logo se percebe que isso pode ser uma dádiva, e não algo ruim. Os ícones grandalhões, típicos de um dispositivo portátil, mostram o necessário.

A parte ruim existe e deve ser apontada, óbvio: ausência de serviços multimídia, de mais funções online, de robustez. No entanto, é aí que mora o paradoxo: a falta de robustez é justamente o charme do Switch. Com a dose certa de adições, como um sistema moderno para adicionar contatos, integrações com redes sociais, uma loja virtual atualizada (e cheia de clássicos também) e os principais apps multimídia, o Switch pode ir longe. Sem precisar queimar a linha: mantenha-se na simplicidade, Switch, porque isso é o que te distancia da concorrência e faz sair da mesmice.

Olha quanto exclusivo f*da!

Apesar da latente necessidade de mais suporte a third-parties, convenhamos, meus irmãos e minhas irmãs: o Switch é da família Nintendo, e essa família é maior do que qualquer parentela italiana. A questão não é o volume, mas sim o recheio. O selo de qualidade das franquias da Big N opera de forma vivaz, mas pouco tenaz.

É disso que a Nintendo precisa: tenacidade. Ritmo. Lançou um Zelda agora, tem Mario no fim do ano, tem Xenoblade 2, novo Fire Emblem, precisa ter F-Zero e precisa mais ainda de um Metroid. E depois um Donkey Kong, um autêntico Star Fox, o pokémon mais ambicioso já criado, um novo Mario Kart e por aí vai. A Nintendo precisa adquirir ritmo em sua biblioteca, e não criar espaçamentos enormes entre seus herdeiros.

Como o próprio subtítulo acima diz: olha quanto exclusivo f*da! Ter tudo isso em um aparelho que pode ser ligado à TV e ao mesmo tempo transportado na mochila é simplesmente um sonho vivo – e um que quero degustar em cada pedacinho possível. Portanto, por mais que third-parties e bla bla bla sejam importantes, a verdade nua e crua é que, em nossos corações, são essas as franquias que dão o arrepio da nostalgia. Coisa que só quem vivenciou na infância sabe. A Nintendo fez muita gente aprender a gostar de jogar video games.

Esteja em dia, Nintendo...

Se a Nintendo souber “estar em dia”, o Switch tem tudo para dar certo. Todos já sabem quais pontos precisam ser amarrados: a robustez do sistema deve ser atualizável e os third-parties devem existir em peso. Coisas que só o tempo vai responder.

É isso que precisa bastar: a Nintendo estar em dia. Em dia com o mercado, em dia com as integrações entre mídias, em dia com os jogos, em dia com a loja virtual, em dia com a oferta de títulos de terceiros e parceiros. Mas sem jamais perder seu charme simplista e minimalista – essa já se tornou uma marca registrada do Switch.

Estou torcendo pelo console. Já tive meus “haterismos” com a Nintendo, critico e fico bravo assim como faria com qualquer outra marca. Mas essa indignação faz parte da paixão de fã – de longuíssima data.