Ser um influenciador nessa era digital é saber que suas opiniões atingem e afetam diretamente um público gigantesco, carregam seu próprio peso enquanto se espalham pela web e, claro, trazem de volta todo tipo de consequências. Recentemente, alguns youtubers vêm aprendendo isso na marra, geralmente após deixarem seu lado mais sombrio aparecer em vídeos que, em grande parte, costumam ser leves e bem-humorados.

Depois de Felix Kjellberg, o mundialmente conhecido PewDiePie, ter perdido seu contrato com a Disney e seu projeto junto ao YouTube Red por conta de piadas e comentários antissemitas, outro astro do mesmo ramo resolveu mostrar que a comunidade gamer pode estar se espelhando em celebridades preconceituosas ou visões bem preocupantes do mundo. Isso porque Jon Jafari, conhecido na internet como JonTron, acabou engatando nesta semana uma série de discussões polêmicas a respeito de suas inclinações políticas e posição quanto aos imigrantes nos Estados Unidos.

JonTron

Fica fácil entender o descontentamento do público com Jafari

Desde que a história começou, no último domingo (12), o youtuber perdeu dezenas de milhares de inscritos em seus canais. Não parece muito para alguém que soma cerca de 8,7 milhões de assinantes em seus projetos na plataforma – includindo o perfil “Did You Know Gaming” –, mas é uma amostra do descontentamento dos seus fãs mais engajados, que não esperavam uma postura tão conservadora do rapaz. Como a discussão política tem se tornado um assunto recorrente entre os jovens nos EUA, ainda mais depois da chegada de Trump, fica fácil entender o descontentamento do público com Jafari.

Faça o que eu digo, não o que eu faço

Para começar, JonTron foi ao Twitter para defender o congressista republicano Steve King, que utilizou a mesma rede social para apoiar um político ultradireitista holandês que afirmou recentemente que “não podemos restaurar a nossa civilização com os bebês dos outros”. O tom escolhido pelo rapaz para comentar o caso e a frase foi bem jocoso e teve como objetivo claro atacar as alas mais liberais. “Uau, que escândalo! Steve King não quer seu país invadido por pessoas que odeiam a sua cultura e seu povo! NAZISTA!!!”, publicou o youtuber.

Os norte-americanos não deveriam tolerar imigrantes vindos de locais não compatíveis

Na segunda-feira (13), ele resolveu que seria uma boa ideia se alongar sobre o assunto em um debate de cerca de duas horas com o streamer Destiny em uma live no Twitch. Claro que a coisa só desceu ladeira abaixo a partir daí, com Jafari levantando conceitos como o da reconquista mexicana – na qual o México supostamente tentaria reaver suas terras nos EUA por meio da imigração em massa – e citando que mesmo os negros ricos cometem mais crimes que os brancos pobres. Para completar, ele chegou a dizer que os norte-americanos não deveriam tolerar imigrantes vindos de “locais não compatíveis”.

O mais interessante dessa conversa é o fato de que o jovem de 26 anos é descendente direto de famílias húngaras e iranianas. Qual é a ironia disso? Basicamente, que o Irã faz parte do grupo de sete países com imigração restrita ou proibida nos EUA desde que uma ordem executiva assinada por Donald Trump foi colocada em vigor. Ou seja, é fácil para Jafari apoiar esse tipo de decisão ou atitude uma vez que ele já foi absorvido pela sociedade norte-americana e não corre risco de ver seus pais e parentes sendo deportados, não é?

Sentindo na pele

Para muita gente, toda essa discussão pode parecer boba, exagerada ou mesmo parte natural de uma sociedade. A mesma coisa pode ser dita sobre os xingamentos, preconceitos e comportamento tóxico adotados por jogadores ou adeptos da comunidade gamer, certo? O pequeno problema é que, a todo momento, inclusive durante jogatinas online ou transmissões ao vivo pela internet, estamos lidando com pessoas reais, que têm sentimentos e que, de um jeito ou de outro, são afetadas por palavras que procuram ferir ou fazer pouco caso de sua condição, realidade ou situação.

Um exemplo disso é o belo texto escrito por Aran Suddi no site The Six Axis – e que pode ser conferido na íntegra, em inglês, neste link. No artigo, o internauta relata como tem percebido uma agressividade cada vez maior dos gamers nos últimos dois anos, com demonizações claras de determinadas parcelas da população por conta de suas crenças, cultura ou cor de pele. Para ele, a aceitação desse tipo de preconceito como algo normal acaba alienando e dessensibilizando as pessoas. “Não é desse jeito que a cultura gamer deveria ser”, acredita.

Esse tipo de comportamento não precisa ser normal

Suddi também explica como já sofreu todo tipo de chacota online por conta de sua cor de pele mais escura, inclusive durante uma transmissão de sua página no Twitch, que foi tomada de comentários racistas. “Enquanto estávamos ao vivo, eu os ignorei para continuar o programa, mas quando eu estava tentando dormir naquela noite, todos os comentários estavam na minha cabeça”, relembrou o rapaz, que teve que aguentar provocações de todo o tipo, incluindo a de que ele fazia parte de um grupo terrorista ou que se explodiria durante o streaming.

Os jogos têm o poder de quebrar barreiras, construir pontes e unir pessoas

O que mais incomoda o autor do texto é que, supostamente, os jogos têm o poder de quebrar barreiras, construir pontes e unir pessoas de toda a parte do mundo. Afinal, a plataforma possui meios de interação que não podem ser alcançados por mídias mais passivas e tradicionais como livros e filmes. “Não deixem que as visões que dividem as pessoas se tornem o padrão de uma indústria que afeta tanta gente ao redor do mundo. [...] Ouçam uns aos outros, porque essa é a única maneira de podermos fazer do mundo um lugar melhor”, finaliza Suddi. E você, acredita em qual futuro para a comunidade gamer?