Desde o lançamento de Persona 3, a franquia da Atlus ganhou destaque em meio aos fãs dos RPGs japoneses que estavam cansados das velhas fórmulas do gênero. Tanto é que, com a chegada de Persona 4 às lojas, a subsérie parece ter finalmente ter rompido os limites de popularidade que Shin Megami Tensei — franquia da qual ela é derivada — nunca conseguiu.

Apesar das diferenças em relação ao material que lhe serve como fonte, Persona mantém características um tanto conservadoras em sua estrutura, como o sistema de combate baseado em turnos. No entanto, o desenvolvimento de Persona 4 Arena provou que os desenvolvedores estavam determinados a deixar até isso de lado e não tinham qualquer medo de brincar com os personagens que haviam criado.

A mais recente prova dessa nova filosofia de desenvolvimento é Persona 4: Dancing All Night, jogo de ritmo lançado em setembro deste ano com exclusividade para o PlayStation Vita. Apesar de em teoria a estrutura adotada pelo título em nada lembrar um RPG tradicional, a ligação com a série se torna evidente em questão de pouco tempo — mesmo que sua história em muitos pontos pareça somente uma maneira de agradar aos fãs de Yu Narukami e seu Investigation Team.

Cenário tipicamente japonês

Seguindo a tradição de games como o saudoso PaRappa The Rapper, Persona 4 Dancing All Night apresenta um modo história que dá prosseguimento aos acontecimentos mostrados no RPG lançado para PlayStation 2 e PlayStation 4. Um ano após resolver o mistério do Midnight Channel, os membros do Investigation Team estão ajudando Rise Kujikawa a retomar sua carreira de ídolo pop.

Os personagens logo se veem envoltos com o desaparecimento do grupo Kanamin Kitchen, que está relacionado ao misterioso Midnight Stage — uma espécie de dimensão paralela na qual uma entidade maligna força monstros a dançar. Enquanto isso, a parte do grupo que não foi transportada a esse local tem que lidar com o desaparecimento de seus colegas e com o festival de música “Love Meets Bonds”, no qual Rise deveria fazer seu retorno aos palcos.

Toda a trama se desenvolve na forma de uma típica “visual novel” japonesa, com direito a múltiplas escolhas de diálogo e algumas decisões que mudam um pouco os acontecimentos. No entanto, a história em geral prossegue de maneira bastante linear e não exige qualquer esforço do jogador para prosseguir nela.

O auge fica por conta dos momentos em que finalmente você pode dançar com os personagens — única forma possível de se livrar dos inimigos. Não é preciso avançar muito na trama para descobrir que ela não é exatamente inspirada e que, no final, serve basicamente como uma desculpa para tentar justificar a mecânica do título.

No entanto, o que mais prejudica a trama não é sua justificativa estranha, mas sim o ritmo adotado por ela. A história demora muito tempo para se desenvolver, chegando ao ponto de incomodar em alguns momentos — entre o ponto inicial e a primeira música se passa mais de uma hora de jogo, por exemplo.

Dessa forma, é fácil dizer que a maioria das pessoas dispostas a acompanhar o modo história até seu fim vai ser constituída por quem já é fã de longa data de Persona 4. Os demais provavelmente só vão investir o tempo necessário para solucionar o mistério devido ao fato de que essa é a única maneira de conseguir desbloquear alguns dos itens e personagens do jogo.

Ritmo de festa

Enquanto Persona 4 Dancing All Night decepciona um pouco em sua história, o game agrada em seu sistema de jogabilidade. Usando as setas laterais e os botões quadrado, círculo e X do PlayStation Vita, o jogador tem que apertar no ritmo certo as notas que surgem a partir do centro da tela.

Além disso, em diversos momentos surgem círculos opcionais ativados pelas alavancas analógicas que garantem uma maior pontuação e são essenciais para chegar à vitória nas dificuldades mais altas. Para completar, também há comandos conjuntos entre os dois lados da tela e momentos em que é preciso segurar um botão durante um tempo determinado.

As mecânicas não são exatamente novas para quem está acostumado ao funcionamento de jogos de ritmo, mas ela se encaixa muito bem no universo criado pela Atlus. Apesar dos efeitos especiais que surge o tempo inteiro, as cores e a identidade visual usadas pelos desenvolvedores fazem com que seja fácil identificar novos movimentos — algo que também é ajudado pelo formato widescreen da tela do Vita.

Uma adição interessante é a possibilidade de ver sua performance inteira depois de acabar uma partida e conferir sua pontuação. Isso permite visualizar de forma fácil tanto os momentos em que você teve dificuldades quanto visualizar as coreografias criadas pelos desenvolvedores — que, naturalmente, passam em branco quando você está concentrado em seguir os comandos que surgem na tela.

O sucesso em suas performances rende novas músicas desbloqueáveis e a oportunidade de alterar seu parceiro de dança no modo Free Dance. Para completar, você pode investir o dinheiro adquirido nos três diferentes níveis de dificuldade para adquirir acessórios para seus personagens e itens que mudam as regras do jogo.

É justamente esse último aspecto que ajuda a prolongar a vida útil do título, visto que você pode tanto incluir regras que o beneficiam (como ter uma segunda chance mediante um desempenho ruim) quanto condições limitantes. Quanto mais difícil o jogo se tornar devido a suas opções, maiores são as recompensas obtidas no final de uma partida.

Catálogo de sucessos

A mecânica competente de Persona 4 Dancing All Night não seria de muita valia caso a trilha sonora do jogo fosse considerada fraca. Quase totalmente constituída de remixes de faixas presentes em Persona 4 e em Persona 4 Arena, o catálogo de canções se encaixa muito bem na proposta do título.

Até mesmo as faixas que surgem de forma repetida têm diferenças suficientes entre si para justificar uma mudança de ritmo e de jogabilidade. No entanto, quem não suporta faixas de pop — especialmente aquele produzido no Japão — dificilmente vai querer acessar o modo jukebox do game para escutar com mais atenção as músicas disponíveis.

No quesito visual, o título se mostra bastante competente tanto nos momentos de dança quanto na hora de interagir com a história principal. O destaque nesse sentido fica para as cenas de animação que surgem de forma pontual e que se encaixariam muito bem em uma série animada.

No geral, a apresentação visual é agradável, apostando nas cores brilhantes e nos personagens bem caracterizados. No entanto, o título peca por algumas decisões de design um tanto confusas — encontrar o quadro de pontuações online não é tarefa fácil, a não ser que você já tenha noção de onde ele está localizado em meio aos menus.

Vale a pena?

Persona 4 Dancing All Night funciona muito bem como um jogo de ritmo e surpreende ao se encaixar sem problemas na história da subsérie do universo Shin Megami Tensei. No entanto, falta ao jogo um diferencial que faça com que ele seja uma entrada memorável do gênero tal qual um Parappa the Rapper ou uma entrada da série Bust a Move.

O modo história, que poderia ser o destaque do título, se mostra pouco envolvente graças a seu ritmo lento e a uma trama que não é tão boa em desenvolver seus personagens. Além disso, a maneira como essa opção trabalha com o gênero visual novel é bastante limitada, o que faz com que o jogador sinta que não há qualquer peso nas escolhas feitas.

No entanto, o que mais decepciona é o fato de que simplesmente não parece haver conteúdo suficiente no título. As canções disponíveis são boas, mas são facilmente esgotadas a não ser que você decida investir em alguns dos DLCs pagos para o título — que, em sua maioria, apresentam preços que parecem um pouco altos demais.

Em resumo, Persona 4 Dancing All Night é o melhor tipo de “fan service” que um fã da série poderia esperar: aquele que não mexe na essência dos personagens e que garante algumas horas de diversão. Por outro lado, quem não possui qualquer vínculo emocional com Yu Narukami e sua turma pode considerar o título simplesmente uma entrada mediana no catálogo cada vez mais restrito de exclusivos para o PlayStation Vita.

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Persona 4: All Night foi adquirido pelo redator Felipe Gugelmin para a realização desta análise