Jogos baseados em marcas famosas parecem compartilhar do mesmo inconveniente de algumas sequências de bons filmes: caras e falas prontamente reconhecidas são utilizadas para vender algo de qualidade questionável. Foi assim com Matrix. Foi assim com Efeito Borboleta. Certamente é assim com Scooby-Doo! First Frights. Afinal, qualquer jogador com um mínimo de discernimento seria incapaz de reconhecer em First Frights uma homenagem, ou sequer um conteúdo que respeite as desventuras originais da “Mistery Inc.”

TAlgumas coisas nem a Velma explica...udo bem, Scooby-Doo nunca foi conhecido por inspirar bons jogos. Além disso, First Frights ainda visa, nitidamente, um público infanto-juvenil e seus malfadados pais (para o caso de se jogar cooperativamente).

O problema aqui é que First Frights simplesmente se desliga quase completamente do espírito e do clima que sempre animaram os desenhos de Scooby-Doo — nem vale a pena comentar aqui as temíveis adaptações cinematográficas...

Em primeiro lugar, porque Scooby, Salsicha, Velma e Cia. aparentemente resolveram se aposentar como detetives no sentido mais clássico. Em lugar do discernimento e da análise de pistas, eles agora socam dezenas de fantasmas, bruxas, caveiras e o que mais de metafísico cruzar o caminho. Em segundo lugar... de onde exatamente vem essas criaturas todas?!?

Se parece com algum episódio? Não, não se parece! First Frights traz um total de quatro fases, cada um com um “mistério” a ser resolvido. Deixando um pouco de lado o fato de o suspeito ser completamente óbvio, absolutamente nada explica como toda uma miríade de seres mágicos/mitológicos pôde ocupar o interior das fases, servindo de prévia ao chefão — talvez o único sujeito simplesmente fantasiado aqui. E, se você espera que uma explicação da musa “geek”, Velma, poderia explicar tudo, melhor esquecer.

Mas, se a quase totalidade do que construiu Scooby-Doo é aqui sumariamente negligenciada, também não se pode negar que First Frights pode garantir um pouco de diversão sem compromisso.

Quer dizer, deixando um pouco de lado que a Velma possa estar vestida como um lutador de sumô, ou que a Daphne dispara um ataque semelhante ao “Bicycle Kick” do Liu Kang, talvez você consiga alguns momentos de diversão e risadas — a maior parte devida ao humor involuntário do jogo.

aprovado
Uma dose de diversão cooperativa

Então Scooby-Doo agora bate com uma salsicha nos vilões (alguma ligação com o seu dono? Freud poderia explicar), biscoitos Scooby saem de bancos quebrados e bruxas aparentemente “reais” pairam pelo ar. Mas, se você conseguir ignorar isso, e principalmente se tiver algum para dividir as repetitivas fases de First Fritghts — do contrário você fica com a I.A. do jogo mesmo —, possivelmente alguma diversão descompromissada possa ser encontrada.

Pelo menos o humor involuntário do jogo 
garante algumas risadas

É claro que boa parte dessa diversão vem das escorregadas da trama e dos “bugs” do jogo. Pulos estranhos, “respawns” defeituosos, “glitches”, etc... Mas, também existem aqui alguns desafios cooperativos, que mostram que o seu companheiro de infortúnio pode fazer mais do que ajudar a socar narizes de bruxas.

Diversas partes no jogo demandam habilidades específicas por parte dos personagens. Independentemente de essas habilidades fazerem sentido — isso será discutido mais para frente —, de fato esses momentos ainda conseguem dar alguma assinatura a First Frights.

Quer dizer, para atravessar um buraco, talvez você precise em um primeiro momento da habilidade de Scooby-Doo para atravessar dutos de ar, para em seguida pressionar uma alavanca e permitir que um paciente Salsicha atravesse para o outro lado.

Mas, logo em seguida, talvez não existam dutos de ar, mas sim um suporte para um gancho. Sim, o mais indicado para isso provavelmente seria Ryu Hayabusa. Mas, aqui quem faz as vezes de ninja é o Salsicha, que, novamente, passará para o outro lado e ativará a plataforma. Da mesma forma, Velma será a única capaz de ativar terminais de computador, Fred será necessário para empurrar objetos pesados e apenas Daphne (inexplicavelmente) conseguirá atravessar pendurada em canos.

Além disso, caso você se canse um pouco dos ataques do seu personagem, basta trocá-lo com o seu companheiro apertando um botão — que, é claro, poderá ou não aceitar a sua proposta. E, caso o seu companheiro tenha uma habilidade maior em evitar buracos e outras atrocidades, “passar a bola” para ele pode ainda ser uma boa saída.

Sim, é tremendamente simples. Mas pelo menos é uma quebra no andamento principal do jogo, que envolve unicamente socar os inimigos até que não reste mais nenhum no cenário. E, de mais a mais, conforme já mencionado, o público-alvo aqui é do tipo que ainda pode se entusiasmar com esse tipo de coisa.

Que tal jogar mais uma vez?

Talvez a tentativa de conferir alguma longevidade para First Frights não tenha sido exatamente bem sucedida, mas a intenção é boa. Uma vez que você atravesse as fases da forma usual — ou seja, para dar continuidade á “melíflua” história —, sempre será possível retornar depois para tentar catar o que faltou.

E isso normalmente será necessário, já que da primeira vez você não escolhe qual será a dupla a atravessar o local, eventualmente deixando de lado alguns pontos que apenas podem ser acessados por personagens ausentes.

Os prêmios aqui podem ser de dois tipos: uma carga massiva de biscoitos Scooby e portentosas novas roupas para os personagens. Nenhum dos dois é realmente necessário, mas, de qualquer forma, é inegável que as fases acabam se tornando um pouco menos descartáveis.

reprovado
Só falta desmontar...

Toma isso, abominação maligna inexplicável!

Sem meias palavras: socar bruxas, esqueletos, palhaços demoníacos e fantasmas os mais diversos é terrivelmente monótono. Você até pode garantir alguma diversão a princípio, enquanto ainda resta uma esperança de que algo diferente apareça para salvar a trama. Bem, esse “algo” não vem, e você vai mesmo continuar fazendo isso por horas a fio.

Embora essa jogabilidade direta traga muito do que construiu a boa diversão dos jogos da família LEGO, First Frights não foi capaz de pegar o que de melhor fazia uma adaptação de LEGO. Quer dizer, nada de humor escrachado, nada de caricaturas; é apenas pancada, pancada e mais pancada.

E, para piorar um pouco mais as coisas, os seus inimigos aqui, de tão fleumáticos, acabam beirando às vezes o masoquismo. Isso porque eles quase nunca reagem, parecendo-se mais com sacos de pancada, menos capazes de infligir dano aos personagens do que aos tendões dos seus dedos.

Sabe aquela da galinha?

Afinal, onde foi parar o humor ingênuo e de bom gosto de Scooby-Doo? First Fright é entulhado de piadas sem graça, comentários absolutamente desprovidos de sentido e, para completar, risadas enlatadas que são disparadas cada vez que alguém pronuncia uma frase completa — felizmente, isso pode ser desativado.

Velma, encontrando uma utilidade melhor para 
os livros...Paralelamente, você ainda tem toda uma série de roupas que, se conferem um objetivo adicional ao jogo, acabam por tirar completamente qualquer coisa que ainda restasse do Scooby-Doo original. Lembra daquele episódio em que o Fred se veste com roupas de futebol americano e sai derrubando bruxas e fantasmas? É claro que não, porque isso jamais aconteceu, e nem poderia!
 
Quem diria que o culpado era o treinador!
 
Basicamente, qualquer um. Embora a resolução dos pretensos mistérios ao final de cada sequência de fases devolva a First Frights algo de essencial em relação aos desenhos, as soluções são tão incrivelmente óbvias, que quase poderiam se encaixar no tópico acima (o das piadas sem graça).
 
É claro que, pelo menos, ao final vem uma paródia da clássica explicação da Velma para como todo o plano ardiloso foi arquitetado — embora ela jamais explique como fantasmas e outras abominações (bastante reais) puderam ser aliciados pelo vilão.
vale a pena?

Bem, caso você tenha mais de dez anos e espere um jogo com um mínimo de substância, provavelmente a resposta seria não. Não que First Frights não seja capaz de ao menos proporcionar uma diversão cooperativa descerebrada. O problema é que é tudo tão igual, tão repetitivo, que mesmo o mais condescendente dos jogadores vai preferir jogar frisbee depois de no máximo meia hora de jogo.

Mas a coisa ainda pode piorar, caso você seja um fã nostálgico e inveterado das incursões da “Mystery Inc.”. Isso porque praticamente nada de Scooby-Doo pode ser encontrado aqui. O humor é fraco, os personagens deixaram o carisma em algum ponto da década de 80 ou 90 e, finalmente, o “brainstorm” que se encarregava de cada mistério deu lugar a uma pancadaria sem sentido contra fantasmas nitidamente masoquistas. Talvez o melhor mesmo seja revisitar algum episódio perdido de “Scooby-Doo, Where Are You!”.