Desenvolvido em parceria pela Headcannon e pela PagodaWest Games, Sonic Mania é o tipo de jogo que torna muito atraente o uso de clichês para descrevê-lo. Dizer que ele é uma “carta de amor aos fãs” ou uma “volta à boa forma” seria correto, mas não suficiente para explicar a ótima experiência oferecida pelo game com versões para PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch (e, a partir de 26 de agosto, PC).

A impressão que o jogo deixa é que o intervalo de 20 anos entre seu lançamento e o de Sonic 3 simplesmente não existiu. Por algumas horas, é possível esquecer que Sonic se aventurou (nem sempre muito bem) no mundo 3D, beijou princesas humanas, virou lobisomem ou apostou em uma física bizarra em Sonic 4 — tudo aqui funciona como deveria, conservando o que era bom e adicionando elementos novos que quase sempre surgem de forma positiva.

Tudo aqui funciona como deveria

Sonic Mania não é bom por questões de nostalgia ou por se adaptar bem à onda “pixel art” que tomou conta do cenário independente em anos recentes. Ele é uma experiência que se destaca por entender os motivos que levaram o porco-espinho a bater de frente com Mario nos anos 90, trazendo uma jogabilidade que mistura ritmo caótico com a precisão necessária a um bom título de plataforma.

Volta à velha forma

Apresentando um total de 12 fases (divididas em 2 atos), Sonic Mania é um game de plataforma com visual 2D no qual seu objetivo é chegar ao final de um cenário. Conceito relativamente simples que ganha complexidade quando você leva em consideração que há diversas formas de fazer isso.

Optar pela rota superior de um cenário pode fazer com que o jogador enfrente trechos de plataforma mais desafiadores, enquanto a parte inferior prioriza a velocidade, mas faz com que seja preciso lidar com água ou lava, por exemplo. Essa sensação de que não há “um caminho errado” é uma das partes mais interessantes do jogo, estimulando que você explore o mesmo cenário duas ou três vezes (ou ainda mais).

Com exceção de três locais, todas as fases são inspiradas em algum jogo da série — indo do primeiro game para Mega Drive até Sonic CD —, o que não significa que elas são exatamente iguais. Enquanto o primeiro ato costuma ser uma recriação bastante fiel do material original (com algumas adições interessantes), o segundo pega o conceito apresentado e brinca com ele de maneiras inesperadas que devem deixar os fãs mais antigos surpresos (e com um belo sorriso no rosto).

Algo que colabora para aumentar a sensação de descoberta é a possibilidade de jogar desde o começo com Sonic, Tails — ou com os dois juntos — e Knuckles. Enquanto o protagonista tem maior velocidade e a capacidade de usar todos os itens especiais que surgem pelo caminho, Tails pode voar durante certo período de tempo e Knuckles pode escalar paredes — o que rende a ele algumas rotas novas e exclusivas em cenários retirados de jogos mais antigos.

Caso as diferenças entre os personagens não seja suficiente para convencer você a voltar a fases anteriores, os segredos escondidos certamente serão: eles rendem a possibilidade de coletar as Esmeraldas do Caos (necessárias para ver o final verdadeiro) e moedas que abrem conteúdos adicionais — incluindo uma versão simplificada de Puyo Puyo, jogo de quebra-cabeça da SEGA.

Quebra de ritmo

Os momentos em que Sonic Mania não agrada tanto são aqueles em que a mistura entre uma exploração rápida e controles precisos não funciona muito bem. Falo especificamente das fases bônus, especialmente aquelas em que é preciso perseguir uma máquina de Eggman para recuperar uma Esmeralda do Caos.

Essas áreas não são malfeitas ou ruins: elas simplesmente proporcionam sistemas de controle que não parecem tão responsivos quanto deveriam. Muito disso se deve à decisão de usar uma perspectiva 3D por trás do ombro dos personagens que, comparada à jogabilidade em 2D, não consegue oferecer uma noção tão exata de distância ou controle sobre seu personagem.

Também poderia usar um longo espaço desta análise para reclamar da fase de água, mas sei que estaria sendo injusto: a quebra de ritmo proporcionada por ela é claramente intencional, forçando o jogador a pensar de forma mais estratégica em suas ações. Nesse caso, não posso dizer que é um problema do game em si o fato de que geralmente não me dou bem com cenários com essa temática.

Um comentário adicional deve ser feito sobre a versão para Nintendo Switch, usada como base para esta análise. O jogo tem ótimo desempenho tanto no modo portátil quanto acoplado ao dock do console, mas incomoda muito os problemas de resposta ao pressionar o botão Home, algo que dificulta o acesso aos menus e o acionamento do modo de repouso — no entanto, não considerei essa questão na hora de atribuir uma nota à aventura.

Para novos e antigos fãs

Sonic Mania é um game excelente, independentemente se você é fã da série ou se esse vai ser seu primeiro contato com ela. Oferecendo gráficos coloridos e atraentes (com algumas opções de filtros), cenários que convidam à exploração e uma trilha sonora memorável, esse é o tipo de jogo ao qual você provavelmente vai se perceber voltando de vez em quando para tentar descobrir uma nova rota ou desvendar algum segredo.

Divertido, gostoso de jogar e repleto de segredos e desafios, Sonic Mania é daqueles jogos que você não se arrepende de ter em sua biblioteca

É um tanto triste que tenha sido preciso que os próprios fãs da série se tornassem programadores para trazê-la “de volta aos eixos”, mas fico feliz que isso finalmente tenha acontecido. Após muitas tentativas falhas de reinventar a franquia e deixar o personagem principal mais “radical”, a volta ao básico acabou sendo tudo o que era preciso para que Sonic e sua turma merecessem novamente o destaque que tiveram no passado.

Divertido, gostoso de jogar e repleto de segredos e desafios, Sonic Mania é daqueles jogos que você não se arrepende de ter em sua biblioteca. Seja para jogar sozinho ou aproveitar junto com os amigos (cada um controlando os personagens em uma fase, ou um com Sonic e ou outro com Tails), o game é garantia de diversão para quem entrar em seu universo.

Sonic Mania foi adquirido pelo redator Felipe Gugelmin para a realização desta análise