Meu primeiro contato com Tacoma aconteceu durante a E3 deste ano, em meio a um showcase de lançamentos promovido pela Microsoft. Apesar de o game ter me interessado (e eu ter experimentado seus momentos iniciais), decidi não escrever sobre ele naquele momento por um simples motivo — o ambiente da apresentação, repleto de sons altos e luzes piscando, não era o mais adequado para apreciar a experiência da Fullbright.

Poucos meses depois, finalmente tive a oportunidade de conferir a versão completa do título em um local mais calmo. E acredito que acertei ao ter adiado minhas impressões: não somente Tacoma é um game que merece ser conferido de forma completa de uma só vez, como dedicar toda a atenção possível a ele resulta em uma experiência muito satisfatória.

Mas vamos aos fatos: o game, produzido pela mesma equipe responsável por Gone Home, nos transporta ao ano de 2088, quando a humanidade já dominou a exploração especial e a tecnologia da inteligência artificial. Você assume o papel de uma mulher que é contratada para investigar os incidentes de uma estação espacial aparentemente abandonada e descobrir o que aconteceu com sua tripulação.

Revelar mais do que essa mera sinopse seria crueldade com quem ainda não jogou, visto que grande parte da experiência envolve descobrir por conta própria os eventos que decorreram antes de sua chegada. Adotando uma perspectiva em primeira pessoa, o título pede que você use sua capacidade de observação e sua atenção para contar uma trama que, definitivamente, teria dificuldades em ser transportada para outra mídia.

Interação indispensável

O que diferencia Tacoma de muitos jogos considerados meros “walking simulators” é o fato de que sua história depende muito da interação do jogador para ser totalmente compreendida. Logo no começo você adquire um mecanismo que possibilita reviver alguns acontecimentos da estação (com intervalos que vão de um ano até poucas horas atrás), peça-central para o desenvolvimento da narrativa.

Você pode pausar essas sequências (contadas com a ajuda de uma recriação da tecnologia de realidade aumentada) a qualquer momento para interagir com os painéis pessoais de cada integrante da equipe, ou retrocedê-las para avaliar com mais cuidado algum detalhe. Você provavelmente vai querer ver algumas dessas cenas múltiplas vezes para conseguir acompanhar personagens que saem de quadro ou para aprender alguma senha digitada por um deles (ganhando assim acesso a outras áreas da estação).

Suas interações também determinam quanto da história você vai compreender

Assim como acontece com Gone Home, suas interações também determinam quanto da história você vai compreender. A narrativa principal é bastante linear, mas jogadores mais atentos vão conseguir perceber detalhes que passam em branco para quem só quer ver a trama central — e são justamente eles que ajudam a entender melhor cada um dos personagens.

Todos os seis integrantes da Tacoma possuem personalidades próprias e desejos que nem sempre ficam claros à primeira vista. É preciso investigar com cuidado os registros deixados por cada um deles e o espaço pessoal ocupado por um membro da tripulação para entender as motivações que os levaram até a estação e para realmente aproveitar o belo trabalho de caracterização feito pela Fullbright.

Sem entrar em muitos spoilers, posso dizer que foi somente através da observação de livros deixados em um ambiente que entendi algumas reações de um integrante da tripulação. Da mesma forma, outro personagem ganha características muito mais humanas quando você percebe que ele mantém escondida uma pequena obsessão por uma banda adolescente.

E é isso que torna Tacoma especialmente interessante e “perigoso” do ponto de vista narrativo. Caso você o trate como um “filme interativo”, pode perder a parte mais atraente do trabalho da Fullbright e pensar que a experiência deixa mais pontas soltas do que o necessário. Da mesma forma, é muito bem-vindo o fato de a empresa não ter sacrificado sua filosofia de design por medo de que um jogador deixasse de acessar alguma informação.

Experiência intensa e breve

Embora a história de Tacoma tenha me prendido do começo ao fim, confesso que senti que o ato final teve um desenvolvimento um tanto apressado. Não que eu acredite que o jogo se beneficiaria de uma trama que durasse dezenas de horas, mas, após jogar, fiquei com a sensação de que a tensão construída em determinado momento vai embora rápido demais.

Esse sentimento de que “poderia durar mais” também decorre do fato de que, mesmo que a experiência não seja muito longa (cheguei ao fim dela em duas horas e meia), é difícil não querer saber mais sobre seus personagens. Depõe muito a favor da qualidade narrativa da Fullbright o fato de que, em um período tão pequeno de exposição, a desenvolvedora tenha conseguido fazer com que eu me importasse tanto com seus personagens.

Em Tacoma, a desenvolvedora conseguiu pegar o que já havia feito muito bem em Gone Home e refinar sua apresentação de forma a elaborar uma trama ainda mais imersiva. Usando de forma inteligente elementos de ficção científica, o game consegue criar um universo bastante crível, que tive que deixar para trás com uma grande vontade de saber mais sobre ele.

Caso o que você procura em um bom game não seja necessariamente uma grande duração, mas uma experiência marcante, não tenho como recomendar mais o jogo. E, se fui vago em muitos pontos dessa análise, é por um bom motivo: eu não ousaria estragar essa experiência fascinante para alguém disposto a abraçar sua premissa.

Tacoma foi adquirido pelo redator Felipe Gugelmin para a realização desta análise