É estranho pensar que The Caligula Effect recebeu um lançamento ocidental levando em consideração o quão “japonês” ele é. Não somente se trata de um game exclusivo para o PlayStation Vita (cuja popularidade no Ocidente nem se compara à obtida no Oriente), como os elementos que constituem sua história são muito característicos do país.

No RPG, você assume o papel de um estudante que se descobre no mundo paralelo conhecido como Mobius, para o qual são enviadas pessoas que, por algum motivo, precisam escapar da realidade. Esse lugar aparentemente perfeito — e habitado somente por estudantes de ensino médio — foi criado por duas idols virtuais (semelhantes à famosa Hatsune Miku) conhecidas como μ (pronuncia-se como Myu) e Aria.

No momento em que a história se inicia, esse ambiente foi totalmente corrompido por μ, que retirou os poderes de Aria. Com a ajuda da idol enfraquecida e de um grupo conhecido como “Go-Home Club”, você deve derrotar os responsáveis por criar os compositores das músicas de μ (conhecidos como Ostinato Musicians) para enfraquecê-la e encontrar um caminho de volta para casa.

Somando esse cenário que parece ter saído da cabeça de um otaku a uma trilha sonora marcada pelo ritmo J-Pop e um sistema de combate ambicioso, temos um jogo com ideias boas, mas que peca por sua execução. O time encabeçado pelo escritor Tadashi Satomi (de Persona 1 e 2) até consegue criar alguns momentos interessantes, mas tropeça pela falta de variedade e pela dificuldade que quase não apresenta desafios.

História medíocre

The Caligula Effect é marcado por um ritmo previsível, no qual você explora diferentes ambientes de uma cidade que se abre aos poucos para revelar novas áreas a explorar. Nesses locais, você explora mapas fechados (cujo traçado se revela conforme você anda) e enfrenta inimigos conhecidos como digiheads até chegar a seu objetivo final.

Os únicos momentos em que há alguma variedade são as missões dedicadas a desenvolver os personagens desses grupos. Esses momentos mostram o quanto o roteiro principal é medíocre e parecem reservar toda a dose de talento que Satomi dedicou ao título — ao saber mais sobre os motivos que levaram os membros do Go-Home a buscar refúgio em Mobius, você realmente passa a se importar com eles e ganha motivos para prosseguir em sua missão.

É um crime que a trama seja tão medíocre quando o Vita tem opções tão melhores em seu catálogo

A história até tenta trazer algumas surpresas, mas quem já está habituado ao gênero JRPG como um todo provavelmente vai ver algumas das reviravoltas chegando a quilômetros de distância. Isso não faz do jogo algo ofensivo, mas é um crime que a trama seja tão medíocre quando o Vita tem opções tão melhores (como Persona 4 Golden) em seu catálogo.

A vantagem de The Caligula Effect em relação a outros jogos que também possuem escritas fracas é o fato de que ele dura somente 20 horas. Quando você finalmente está perto de se cansar dos inimigos clichês e da repetição, os créditos começam a rolar.

Elemento social fraco

O jogo também tem um componente social que até parece interessante em momento inicial, mas que se mostra bastante vazio. Ao interagir o suficiente com qualquer um dos 500 NPCs disponíveis, você pode adicioná-los à sua equipe — o que, na prática, significa a possibilidade de jogar com um “clone” de alguns dos personagens principais.

O único motivo para correr atrás de algum desses personagens adicionais é para acumular pontos de habilidades para seu grupo principal. Como todos os pontos ganhados são compartilhados entre todos os membros de sua equipe, muitas vezes você vai querer recrutar personagens de nível baixo com o único objetivo de fortalecer aqueles que já estão mais avançados.

Combate ambicioso

O que me fez querer continuar progredindo em The Caligula Effect foi o sistema de combates por turno. Sua equipe tem espaço para quatro personagens, cada um com habilidades e papéis diferentes na batalha — enquanto alguns estão ali para causar danos, outros são melhores em fazer um papel de suporte ou aguentar os ataques inimigos.

Tudo isso seria bem padrão não fosse o fato de que, a cada turno, você pode definir três ações para cada um dos personagens em batalha — o que abre espaço para realizar até 12 ataques em um só turno. Como cada habilidade provoca um resultado diferente, todos os confrontos se tornam uma espécie de “quebra-cabeça” no qual o jogador combina poderes de forma a montar a maior cadeia de combos possível.

Ciente do quão “roubado” esse sistema é, a desenvolvedora FuRyu estimula que você acabe todas as batalhas (algumas delas contra chefes) em um único turno. Isso é divertido durante algum tempo, mas perde um pouco do impacto diante do fato de que a maioria dos inimigos é fácil o suficiente para ser derrotada tranquilamente sem que você tenha que usar todos os golpes à sua disposição.

A frustração é aumentada pelo fato de que, ao encontrar um inimigo com nível muito acima do possuído por sua equipe, isso não significa necessariamente enfrentar uma batalha difícil. A criatura em questão simplesmente vai receber menos danos (sem machucar o suficiente para ser um problema), o que significa ter que enfrentar uma batalha que se arrasta durante longos minutos — nesse caso, é preferível fugir a aguentar o tédio resultante da situação.

Muito para o hardware do Vita

Não há como falar sobre The Caligula Effect sem mencionar os problemas de desempenho enfrentados pelo jogo. Em muitos momentos, o game parece exigir mais do que o PlayStation Vita é capaz de suportar, o que resulta em quedas notáveis na taxa de quadros por segundo — algo frequente nos combates, que constituem a principal parte do jogo.

O game parece exigir mais do que o PlayStation Vita é capaz de suportar

Também incomoda o tempo considerável de loading que o game exige para entrar e sair dos combates, o que faz com que não demore até que você passe a evitá-los. A existência desses problemas é realmente uma pena, especialmente levando em consideração que os visuais em geral são bonitos para um game portátil e que a trilha sonora tem faixas muito boas e que “grudam” na cabeça com bastante facilidade.

Melhor do que nada?

Vou ser sincero: o único motivo pelo qual The Caligula Effect deve ter alguma repercussão entre os donos do PlayStaton Vita é o fato de que ele é um dos raros lançamentos exclusivos que o portátil ainda recebe no Ocidente. Mesmo apresentando uma ou outra ideia interessante, o RPG da FuRyu não consegue ser uma experiência que vai além da mediocridade.

Caso você seja um fã do gênero, só vale a pena a aventura para conferir o sistema de combates. No entanto, livre-se de qualquer expectativa de encontrar uma história boa ou personagens cujos nomes você vai se lembrar daqui a alguns meses.

Conforme afirmei anteriormente, The Caligula Effect é uma experiência que em nenhum momento ofende, tampouco traz problemas que o tornem irritante. No entanto, a experiência como um todo é tão medíocre que não há como recomendá-lo a não ser ao maior fã da cultura japonesa ou a quem está desesperado por alguma experiência exclusiva ao Vita.

The Caligula Effect foi analisado a partir de um código de review fornecido pela Atlus