Sabe quando você vai a uma festinha de aniversário e o refrigerante está sem gás, os docinhos acabam rápido, quase não foi ninguém conhecido, e o aniversariante mal dá bola para a sua presença? Até a E3 2016, esse era o sentimento dos fãs de Resident Evil em relação aos 20 anos da franquia que definiu o survival horror nos games.

Antes de Resident Evil 7, mostrado na feira, eram poucas novidades relevantes da Capcom sobre a comemoração. E uma delas deixou os jogadores desconfiados por não parecer um primor técnico e fugir do espírito da série: Umbrella Corps, um spin-off de tiro baseado em multiplayer competitivo. Se essas baixas expectativas permaneceram — ou se elas estavam até altas demais para o material final — é o que você confere nesta análise.

Festa estranha com gente esquisita

Não há história, mas existe um pano de fundo. A empresa farmacêutica (e bioterrorista nas horas vagas) Umbrella Corporation não existe mais, mas outras organizações similares querem herdar as pesquisas e armas bio-orgânicas (BOWs). Para isso, mercenários são contratados para explorar áreas que registraram incidentes, coletar amostras e impedir que a outra equipe faça isso primeiro.

Você controla um desses rostos desconhecidos, soldados genéricos em uniforme tradicional completo. Isso faz com que veteranos não reconheçam a série no game e novatos mal sintam interesse pelas figuras. Os gráficos não são ruins, mas várias texturas e animações são chapadas demais, parecem mal colocadas ou fora de lugar nos mapas. A animação dos zumbis morrendo é uma “explosão” em que as criaturas viram uma gelatina, para brotarem dela logo depois.

No controle de um mercenário

É difícil ranquear os problemas, mas dá para dizer que jogabilidade é o ponto mais problemático. Ao mesmo tempo que apresenta boas ideias apoiadas pela limitada engine Unity, executa várias delas mal e encobre as qualidades. A movimentação do personagem é esquisita: ele até se move na mesma velocidade quando está andando, agachado ou rastejando, como se ele “deslizasse” pelo chão. O sistema de colisão não é ideal, e estocadas de zumbis que você jura que não o alcançarão causam dano.

Há ainda um esquema de cobertura que não funciona muito bem, não é ideal para todos os mapas e é inútil no single player, pois zumbis não atiram. Só que ele é tão "propagandeado" pelo game que vários pontos do mapa ficam iluminados para indicar que você pode se proteger por lá.

Nota-se ainda um problema de posicionamento de câmera, com um ângulo desfavorável para enxergar o cenário. Parte da tela fica coberta pelas costas e pelo equipamento do personagem, deixando pouco campo de visão para você. Ao atirar em primeira pessoa, essa sensação diminui, mas essa câmera também apresenta seus próprios problemas.

Um arsenal chamado espingarda

Umbrella Corps traz vários esquemas de equipamento, mas a variedade de armas não é tão alta, e elas são muito desbalanceadas, especialmente no caso da espingarda. Ela tem tiro rápido demais e um dano absurdo, sendo escolha certa e tirando a graça de muitas rodadas.

Contudo, há várias boas originalidades na interação com os mortos-vivos: dá para usar um zumbi como escudo e até disparar contra o sensor de proteção de outros jogadores, atraindo as criaturas para cima dele. No ritmo alucinado das partidas, muita gente acaba se esquecendo disso, mas os elementos são bem aplicados e interessantes. Outra boa adição é o “Racha Crânio”, uma ferramenta de escalada que virou arma. Ele é divertido de usar, ajuda a liberar obstáculos no mapa e pode até ser carregado para golpes mais poderosos, fazendo com que ele seja um dos favoritos dos jogadores.

De Raccoon a Kijuju

Em seu lançamento, são sete mapas em Umbrella Corps: as ruas de Raccoon City e a memorável delegacia de polícia da cidade (Resident Evil 2 e Resident Evil 3), a base dos Ashford na Antártida (Resident Evil: Code Veronica), o vilarejo de Pueblo (Resident Evil 4); o quartel-general da Tricell e a cidade de Kijuju (Resident Evil 5); e um laboratório subterâneo da própria Umbrella. A mansão de Spencer (Resident Evil) e o mercado de Lanshiang (Resident Evil 6) foram confirmados como DLCs.

Os cenários são um ponto positivo para atrair fãs antigos, trazendo boas memórias de saga, além de garantir variedade no visual. O problema é o design dos mapas, que incomoda quem costuma jogar títulos de tiro. Alguns são muito pequenos, como as ruas de Raccoon, fazendo com que as lutas aconteçam em espaços apertados demais, com respawn às vezes já colado com a ação e poucas possibilidades de estratégia. Outros são grandes demais para partidas de 3 contra 3.

Quando o bicho pega

São três possibilidades de multiplayer: fechada (com seus amigos), aberta (sem ganhar experiência) e ranqueada. Já dentro dessas categorias, há dois modos: One-Life Match e Multi Mission. No primeiro, o personagem que morre fica de fora da rodada inteira, dando emoção a cada tiro disparado. No segundo, cada round é uma entre oito missões diferentes, como segurar uma maleta ou encontrar um zumbi com DNA especial.

Aqui, vale deixar as críticas de lado: é possível se divertir nas partidas multiplayer, especialmente na companhia de amigos no seu time ou ao menos usando comunicação por voz. O ritmo acelerado empolga e os resultados imprevisíveis. Entretanto, dá para cansar rápido demais do game, especialmente se você jogar várias seguidas.

O lobby é confuso: você não sabe se a sua sala é a única ou se outras estão mais bem posicionadas, tampouco o critério para você cair onde está. Além disso, a obrigatoriedade de seis jogadores (três de cada lado) para todos os modos limita bastante a experiência e pode fazer você tomar chá de cadeira por um tempo. O motivo? Durante os nossos testes, ainda tivemos dificuldades para preencher as vagas dos times – não sabemos se por configuração do servidor ou simplesmente pela falta de pessoas em espera, mas acreditamos que seja a segunda opção.

Um exercício de paciência

Para os novatos, Umbrella Corps apresenta um tutorial para se familiarizar com cada ação. Há também o modo “O Experimento”, ao mesmo tempo um segundo tutorial (!) e uma alternativa single player. Porém, dado o resultado apresentado, talvez fosse melhor não colocar nada. Nele, você passa por uma série de missões nos cenários, realizando objetivos como coletar um número de amostras de DNA que caem de inimigos e guardar uma determinada posição no mapa por alguns segundos.

De tão básico, “O Experimento” parece mais um modo extra de algum Resident Evil antigo perdido, como o modo “Mercenaries”. As missões são repetitivas, e o ritmo é monótono – dá para passar as fases só usando golpes físicos do Racha Crânio ou coronhadas da arma, que são mais poderosos que tiros. Nem como tutorial ele ajuda tanto, já que só ensina a interação com criaturas, sem simulação da experiência multiplayer.

Faça o seu próprio soldado

Outro elogio que Umbrella Corps merece é quanto à tentativa de diferenciar cada soldado com a personalização em vários níveis. Você pode modificar a cor de partes do equipamento (capacete, máscara, ombreira e armas) e adicionar “adesivos” da Umbrella, BSAA e outras logos até no rosto ou nas costas do combatente. No caso de armas, cada uma possui acessórios próprios, de silenciadores a miras.

Essa é uma boa forma de garantir um grau de diferenciação de cada personagem, para que você não veja seis soldados exatamente iguais na partida. Skins dos personagens clássicos da franquia também existem na loja, mas a aplicação de textura não é muito bem-sucedida.

Vale a pena?

Umbrella Corps parece datado desde o seu lançamento. Ele não atrai os veteranos da saga (especialmente os que torcem o nariz para a ação e os tiroteios desde RE4) e não tem atrativos para angariar novos fãs. Os personagens de Overwatch são mais carismáticos e variados, mapas e armas já existem aos montes em Counter-Strike: Global Offensive e por aí vai. “Genérico” define o jogo muito bem: ele é mais um em um mar de shooters multiplayer.

Há qualidades na parte de personalização de personagens, na emoção passageira do multiplayer e na seleção de cenários clássicos, mas não vai muito além desses pontos. Já elementos como jogabilidade, o single player e a falta de variedade incomodam e se destacam negativamente.

Sim, o jogo tem um orçamento menor. Sim, o foco aqui é a diversão em multiplayer e ação pura. Porém, nenhum argumento justifica a entrega de um produto tão limitado em tantos sentidos, e parece que a Capcom simplesmente não se empenhou tanto — e resolveu nem associar "Resident Evil" com o game, deixando o nome apenas como "Umbrella Corps". Sendo assim, não dá para esperar que os jogadores se animem em comprar, jogar ou ocupar os servidores.

O gosto que fica é pior que o de Resident Evil: Operation Raccoon City — e, como redator que analisou o game na época, confirmo que essa sensação é bem desagradável. Sendo assim, uma coisa é certa: Resident Evil 7 vem aí, e tudo aponta que Umbrella Corps vai passar tão despercebido como só mais um zumbi no meio de uma horda.

Este jogo foi cedido pela Capcom para a realização desta análise.