Não é fácil começar a acompanhar a franquia Yakuza. Graças a decisões de adaptação duvidosas, os primeiros jogos da série nunca ganharam muita força no Ocidente e a SEGA quase desistiu de continuar trazendo as sequências para cá. Felizmente, a companhia se redimiu a partir do terceiro jogo, embora um obstáculo grande ainda permanecesse: a história.

Como todos os capítulos da franquia acompanham uma trama narrativa única, pode ser muito confuso para um jogador novo entender nomes, referências e certas situações caso seja “jogado de cabeça” nesse universo. Nesse contexto, Yakuza 0 surge como a melhor forma de curiosos finalmente conseguirem experimentar o jogo sem o risco de ficarem meio perdidos.

O game acompanha Kazuma Kiryu e Goro Majima, dois dos personagens mais marcantes da franquia, conforme eles dão seus primeiros passos no mundo do crime organizado. Marcado por uma trama que alterna entre momentos sérios e situações hilárias, o título traz o tipo de experiência que somente desenvolvedores japoneses conseguem criar — e é justamente isso que faz com que ele se destaque entre outros lançamentos que apostam em fórmulas de mundo aberto.

Seriedade e galhofa

Um elemento que ajuda a tornar os jogos da série Yakuza tão únicos e divertidos retorna com força total na prequela: uma história que mistura momentos terrivelmente sérios com cenas hilárias e subtramas que apelam para o nonsense. No papel essa mistura parece bizarra, mas basta jogar um pouco para entender os motivos para isso funcionar tão bem.

Se em um momento você tem que descobrir quem incriminou Kiryu por um assassinato, na cena seguinte o personagem está ensinando a um grupo de cantores como agir como “punks de verdade”. Embora esses momentos mais leves geralmente estejam reservados a missões secundárias, eles também surgem em algumas situações da história principal.

No entanto, é preciso ter certo conhecimento da cultura japonesa para realmente aproveitar tudo o que Yakuza 0 oferece em matéria de roteiro. Ao mesmo tempo que os personagens são “machões” que resolvem seus problemas usando a violência e não se deixam abater pelas dificuldades, eles também não veem problemas em chorar por seus companheiros caídos ou fazer demonstrações de afeto genuínas — situações recorrentes em outras obras orientais como Hokuto no Ken, por exemplo.

Independente do tom adotado, algo que permanece é a alta qualidade do roteiro. Yakuza 0 ganha muitos pontos por entregar justamente aquilo que se espera de uma prequela: uma trama envolvente e que não depende de conhecimentos anteriores para funcionar ao mesmo tempo que oferece referências e brincadeiras especiais para quem já acompanha a franquia.

Um mundo não tão aberto

A ação de Yakuza 0 acontece em dois cenários: enquanto Kiryu tem que lidar com problemas envolvendo especulações imobiliárias em Kamurocho, Majima gerencia um clube noturno em Sotenburi. Essas regiões oferecem uma experiência de exploração aberta, mas em uma escala muito mais reduzida do que em um GTA ou Witcher 3.

A aposta em ambientes mais contidos traz como vantagem o fato de isso permitir a criação de cenários bastante detalhados e que realmente parecem fazer parte da vida de pessoas reais. As ruas das cidades, os neons brilhantes e outros elementos visuais são essenciais para entender a situação econômica e social do Japão no final dos anos 80 — época em que um grande crescimento levava a excessos de comportamento e à ostentação exagerada de roupas caras e outros itens de luxo.

A escolha por um cenário limitado permitiu à SEGA enchê-lo de atividades paralelas

A escolha por um cenário limitado permitiu à SEGA enchê-lo de atividades paralelas. Ao contrário do que acontece em games como Grand Theft Auto, não há qualquer introdução que vá ensinando aos poucos o que você pode fazer: a partir do momento que você toma controle de Kiryu ou de Majima, já é possível investir diversas horas nessas atividades.

E não há do que reclamar nesse sentido. Além de visitar arcades e jogar clássicos como OutRun, você pode participar de mini games de karaokê e dança, jogar dardos e praticar partidas de baseball, entre outras coisas. Muitos dos passatempos oferecidos têm características tipicamente japonesas, incluindo partidas de shogi.

Combate estilo arcade

Grande parte de seu tempo em Yakuza 0 vai ser investido em combates, que acontecem tanto como decorrência de avanços em sua trama quanto como algo aleatório enquanto você caminha pelas cidades. Nesse sentido, o jogo lembra bastante os beat'em ups do passado, investindo em um sistema de combates bem leve em que os oponentes saem voando pelo ar como consequência de seus socos e chutes.

Tanto Kiryu quanto Majima contam com três estilos de luta distintos, sendo um mais equilibrado e outros dois focados em situações específicas. Infelizmente, o jogo não estimula você a realmente explorar as possibilidades oferecidas: na dificuldade normal, basta escolher um que pareça mais atraente para conseguir chegar ao final do game sem grandes problemas.

Além de poder realizar ataques normais ou fortes, o jogador conta com “finalizadores” que são acionados mediante o preenchimento de sua barra de “Heat”— algo que acontece mais rapidamente quando você tem um bom desempenho nos combates. No entanto, o que torna as lutas especialmente interessantes são os exageros feitos pela SEGA: o sangue jorra do rosto de inimigos derrotados, e todos os adversários abatidos deixam cair quantias absurdas de dinheiro que voam pelo ar.

o sangue jorra do rosto de inimigos derrotados

Infelizmente, mesmo tendo me divertido com as batalhas, senti que elas pecam pela falta de profundidade. Depois de certo tempo é fácil detectar qual é a tática mais eficiente para seu gosto pessoal e se limitar a usá-la, já que, mesmo variando os inimigos que aparecem, o jogo nunca exige que você mude seu estilo ou pense de maneira diferenciada para conseguir derrotá-los.

A exceção a essa regra são os confrontos com chefes, que ganham ares épicos graças a uma trilha sonora muito boa e a efeitos visuais que tomam a tela. Infelizmente, é somente nessas situações um tanto limitadas que o game exige fazer algo além de apertar rapidamente os botões enquanto você observa a vida de seus inimigos se esvaindo.

Visual de transição

Enquanto Yakuza 0 chegou só recentemente no Ocidente, o jogo já está disponível desde 2015 no Japão — país que também recebeu uma versão para o PlayStation 3. O processo de desenvolvimento visando duas plataformas tem consequências claras no aspecto visual do game, que parece um pouco envelhecido do ponto de vista técnico.

Ao mesmo tempo que o jogo exibe rostos com um nível muito grande de detalhes — especialmente nos casos em que um personagem é inspirado em um ator real —, os NPCs surgem com uma quantidade bastante baixa de detalhes. Da mesma forma, o nível de detalhamento de texturas varia entre muito alto e decepcionante.

A impressão que fica é de que a SEGA misturou recursos feitos para o PlayStation 2 e para o PlayStation 3 e adicionou sobre eles modelos que só podem ser realizados no PlayStation 4. Em outras palavras, é fácil ficar com a impressão de que estamos jogando uma remasterização para a plataforma da Sony, e não um game pensado desde o início para ela.

Mais um motivo para admirar o Japão

Yakuza 0 tem todos os elementos que formam um jogo tipicamente japonês. Com uma trama que não poderia ser feita de outra maneira (nem em outro local), o game consegue entregar uma experiência de mundo aberto bastante peculiar e que não pode ser confundida com nenhum jogo do tipo — em resumo, esse sem dúvida é um lançamento digno do selo “estilo Yakuza”.

Particularmente, eu gostaria que o combate fosse um pouco mais exigente na dificuldade normal e me incentivasse a apostar em mais variações. No entanto, isso não chega a ser um problema quando, no fim das contas, são as lembranças das finalizações absurdas e do dinheiro voando de meus adversários que mais marcaram a memória.

Além de agradar com facilidade quem já é devoto à série, o game é a melhor porta de entrada para a franquia no momento atual. Apostando em personagens interessantes e em uma trama com consequências e peso real — algo raro para uma prequela —, Yakuza 0 tem tudo para “redimir” de vez a SEGA pelos erros que cometeu ao trazer os dois primeiros jogos para o PlayStation 2.

Seja você um fã de histórias orientais ou alguém que está procurando uma experiência de mundo aberto com características únicas, não é preciso procurar em outro lugar. O título é uma daquelas experiências que não acertam em tudo, mas conciliam tantos elementos aparentemente díspares de uma maneira tão boa que é difícil se decepcionar com o resultado final.

Yakuza 0 foi analisado a partir de sua cópia digital com um código cedido pela SEGA